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sábado, 19 de novembro de 2016

Loiras do Morumbi



Trecho de uma nova peça (pois é, retomei isso... escrever diálogos... que foi o começo de tudo):


CENA 1

Duas coroas esperam sentadas (qualquer lugar serve; depois de certa idade, tudo é espera para elas).

Judith - (sem muita vontade de falar, porém incomodada com o silêncio da outra) Então, né...?

Verônica - É...

Judith - E a senhora, como anda?

Verônica - Nem muito lá, nem muito cá.

Judith - Tudo na mesma?

Verônica - Não. Ultimamente, piorando.

Judith - (falsamente solidária) Nossa!

Verônica - E a senhora, tem feito o quê?

Judith - O de sempre.

Verônica - Michê! Jesus, ainda?
Judith - Cada vez menos, mas não posso me queixar.

Verônica - Uau! Uma teimosa entre nós!

Judith - Não, uma sobrevivente. Teimosa é a senhora, que ainda consegue estar viva com essa cara amassada, esse corpo tombado e esse veneno todo borbulhando aí dentro. Devia ser estudada pelo Instituto Butantã... ou pela Nasa.

Verônica - E eu sinto é pena...

Judith - De mim?

Verônica - Não, dos seus clientes, meu bem.

Chega a terceira, tinha saído para comprar churros, mas voltou com meio saco de pipoca doce.

Judith - (para Gil) E os churros, criatura?

Gil - Comprei.

Verônica - Cadê?

Gil - Sou compulsiva, comi.

Judith - Os três?

Gil - (para Judith) Na verdade, com o dinheiro que a senhora me deu, pude comprar cinco, para ver se trazia dois.

Judith - E comeu os cinco?

Gil - Seis. Com o troco, comprei mais um e esta pipoca. Sobrou um pouco, querem? Odeio pipoca! Comprei por comprar, também sou compulsiva em gastar grana dos outros.

Verônica - (para Judith) Tem jeito, não. Avisei pra não confiar nessa draga.

Gil - Credo! Quanta intolerância!

Judith - Não, é raiva mesmo!

Gil - Inveja, meu bem! Posso devorar um boi, mas não sou como vocês, que engordam até com o vento.

Judith - Pra emagrecer, a gente fecha a boca. Mas pra você ficar bonita, querida, nem com reza forte. Nascendo de novo, talvez.

(... e o texto segue...)


© Felipe Greco
(diretos reservados)




terça-feira, 8 de novembro de 2016

Gaiolas e voos




Andorinha no céu é sinal de verão, dizem. Eu nunca tinha visto uma de perto. Hoje cedo, apareceu outra (ou a mesma de ontem, não sei). Mais corajosa que a anterior, pousou na janela do meu escritório, onde escrevo diariamente. Olhava para mim, curiosa. Talvez quisesse saber: "Com um céu imenso e ensolarado lá fora, por que eu não voava logo dali?"
Pois é... Cada um faz o voo que pode e no espaço que tem, não é mesmo?
Depois de ajeitar as penas com o bico, ela se cansou daquela visita, bateu asas e partiu. Permaneci na minha gaiola, voando em círculos.


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Presente de mãe



Flor de “vó”, é o que dizem. Em casa de “vó” sempre tem uma dessas. Ou tinha. Na casa da minha avó, sim, tinha uma... e bem grande. No Natal, recebia luzes e enfeites... Na verdade, era na casa dos meus pais, que depois passou a ser da minha avó paterna, de quem peguei emprestado o sobrenome Greco: Isabel Greco Tavares. 

No Sul, chamam essa árvore de “primavera”. Mas é “manacá-de-cheiro”. E as flores exalam um perfume inconfundível. 


Aqui por perto, no bairro em que moro, felizmente, há uma dessas... Já está carregada de flores e aromas.


De vez em quando, passo por ali. Não tem como não voltar no tempo, mas não com saudosismo. Não sou saudosista. Boas lembranças, apenas isso.


Atualmente, na nova casa dos meus pais, tem outra dessas. Quando estive lá, minha mãe quis que eu trouxesse uma muda. Preparou tudo. Do jeito dela, claro, só raiz e caule (diz que é assim que a planta aguenta viagens longas)... Na última hora, desisti... Uruguaiana fica "ao lado" da Argentina, mas também do Uruguai. 


"Mãe", eu disse, "e se me pegarem no aeroporto, pensando que é muda de maconha? Vou dizer o quê: que é maconha da mãe?" 


Ela ficou me olhando... Daí, rebateu: 


"Deixa de ser medroso! Te dou umas folhinhas, também. Se te pegarem, mostra pra eles e diz que fui eu que botei a muda na tua mala. Isso aí é bobagem que inventam pra ganhar dinheiro sem pagar imposto. Cachaça, vendem em qualquer boteco e se pode levar na mala; maconha, não?"


"Tá doida, mãe?"


"Ué, tu não é artista? Se tem medo de escândalo, vai fazer outra coisa, ora!"


Minha mãe sempre foi bastante pragmática. Mas... eu, hein? Preferi ser medroso, deixei lá com ela a muda.


Tem cada mãe, viu! A minha, acho que daria um livro. Ou vários.



domingo, 11 de setembro de 2016

Novos velhos tempos




Em meados dos anos 1980, com 17 para 18 anos (naquele tempo a maioridade era aos 21, precisei ser emancipado pelos meus pais para poder estudar em São Paulo) quando fui divulgador na Editora Vozes, ajudei a trabalhar esta obra junto à imprensa: Brasil: nunca mais, com prefácio de Dom Paulo Evaristo Arns. 

A famigerada ditadura militar caminhava para o fim. 

E veio o fim (?). 


Comemoramos!


Havia esperança de voltarmos de fato à democracia. 


"Eleições diretas já", reivindicávamos nas ruas. 


E elas vieram (não completas, mas vieram). 


Então recebemos o primeiro revés da história: o presidente eleito morreu (?), Tancredo neves não chegou a assumir. No lugar dele, recebeu a faixa José Sarney (vice, era do PMDB). 


Na década seguinte, novas eleições (bastante manipuladas pelas mídias) colocaram (!) Fernando Collor no poder. O barco desse novo governo logo fez água (mais por arrogância e incapacidade de gerenciamento político do presidente que corrupção; hoje sabemos disso). Outro do PMDB ficou no lugar dele: Itamar Franco. 


Então veio Fernando Henrique, em quem, confesso, depositei esperanças; por ele ser intelectual e acadêmico reconhecido, acreditei que iria, finalmente, investir pesado em educação. Que nada, tudo continuou como estava nessa área... ou até piorou. 


Depois vieram Lula e Dilma... Até que, por uma manobra que a história (se bem contada) deverá tirar a limpo, volta a assumir o poder alguém do partido soturno e sobrevivente (?) da ditadura... Ou seja: Michel Temer, do Partido do Movimento Democrático (?) Brasileiro (PMDB, antigo MDB... quando só havia Arena, de direita, e MDB, supostamente de esquerda). 


Nas manchetes, agora parte do povo volta às ruas pedindo novas eleições. Também políticos conservadores que defendem (?) tradição, família e propriedade (TFP ressurgida das supostas cinzas) acabam envolvidos exatamente no que tanto alegam estar dispostos a combater (?): a corrupção. Nas passeatas, a polícia militar entra em confronto com os manifestantes. Bombas são jogadas. Prisões são feitas de modo aleatório (?). Agentes (?) são infiltrados. Arruaceiros, talvez idem, para justificar (?) tais represálias violentas aos movimentos. 


Emfim, vendo tudo isso, a pergunta que fica é: houve mesmo uma volta à democracia?
A(s) ditadura(s) acabou(acabaram)? 


Hoje, eu acrescentaria ao título deste importante livro sobre torturas e torturadores um "talvez". Ficaria assim: Brasil: (talvez) nunca mais.


Algo para pensarmos com muito cuidado e carinho, não?



domingo, 4 de setembro de 2016

Apenas uma opinião...



Fui ver Aquarius. O filme é quase um tributo à atriz Sônia Braga (que está mais uma vez totalmente entregue em cena e se "atreve" a desconstruir a própria imagem de "símbolo sexual", aparecendo sem maquiagem e com um dos seios mutilado pelo câncer). Ela, como eu já disse em outra postagem, "é" da lente de cinema, sem dúvida. Não filma, faz amor com a câmera e anda solta pelos cenários... com a desenvoltura de alguém que mostra a casa para os amigos. Algo que não se aprende: a pessoa tem ou não tem. Pode até ser excelente artista de teatro e/ou televisão, mas se não tem essa intimidade com a telona, dançará. 
No entanto, na minha opinião, a história não se segura. Há ótimos diálogos soltos em uma trama que não se sustenta dramaticamente. 
Assuntos (bons temas, sim, como a solidão na velhice, falta de comunicação com os filhos, a rejeição por causa das profundas cicatrizes deixadas pelo câncer de mama feminino, entre outras questões importantes e bem atuais) são jogados à plateia. Porém o "acaso" (como num passe de mágica) surge para tentar arrematar todo aquele interessante chuleio. Uma bela colcha de retalhos, mas apenas alinhavada. 
Se concorrer ao tão cobiçado Oscar (cujo motivo, sinceramente, desconheço... ou não consigo entender) vejo que teria um pró e dois contras: como o prêmio possui (sempre foi assim) um forte viés político, pode ser que consiga algum destaque por lá; mas por ter cenas que estadunidense em geral não tolera (hipocritamente, claro... como homens com pênis eretos, mulher liberada que contrata um amante profissional) e não segue um padrão acadêmico de cinema (bastante apreciado em Hollywood), talvez nem seja selecionado para a disputa. 
De qualquer maneira, é um filme que deve ser visto, porque apresenta um impactante retrato do (difícil) empoderamento feminino. Em tempos de misoginia disfarçada do que chamo de "carinhos cruéis", mulheres em várias partes do planeta (depois da chamada revolução sexual, dos avanços do feminismo etc.) voltam a ser relegadas ao papel de "belas, recatadas e do lar". E o que é pior: com o "aval" das próprias mulheres! Portanto, fica a dica. Sim, porque talvez o diretor tenha mantido de propósito esse "alinhavado"... para que cada um na plateia termine a costura do jeito que puder. Ou, no mínimo, saia dali bastante tocado pelo filme. Repito: quem puder fazer esse dever de casa, óbvio. Os mais, digamos, "apressadinhos" simplesmente dirão: "Nossa, que filme chato e como essa mulher está acabada!"
  

sábado, 6 de agosto de 2016

Mundo sem arte

Fé e hipocrisia... Esse pregador (E. Dewey Smith, da House of Hope em Atlanta, Geórgia) dá um chute em muitos "rezadores" (de todo tipo) que se ajoelham para Deus, mas logo saem tacando pedra no próximo (em especial, nos homossexuais). 
O mesmo vale para outros hipócritas, que vivem atacando artistas, chamando-os de vagabundos, perdulários, viciados, degenerados, inúteis etc. 
Ontem, na abertura dos Jogos Olímpicos de 2016, em um espetáculo com poucos recursos técnicos e muita criatividade/garra, o país sentiu um bom alívio, não? E, vendo aquilo, pensei muito nas perseguições atuais que a classe artística vem sofrendo no Brasil. Ora, se temos ainda algum "crédito" além fronteiras, devemos muito a uma infinidade de artistas talentosos/desbravadores, não a diplomatas, políticos, burocratas, empresários etc.
Pois bem, tiremos do mundo os tais "vagabundos, perdulários, degenerados, inúteis etc." e, como diz esse corajoso pregador, "vamos ver quantas canções poderemos cantar no próximo domingo". 
Apontemos, então, um período da nossa história (das cavernas até hoje) sem a arte... Sem crenças, religiões e afins, muitos povos sobreviveram e ainda sobrevivem muito-bem-obrigado em algumas partes do planeta. Sem qualquer expressão artística, desconheço.
Um bom domingo a todos!




sexta-feira, 22 de julho de 2016

Pós-modernidade?



Andei sumido, porque não tinha muito o que dizer. Mas vamos lá...

Quando jovem, antes de visitar e/ou me hospedar numa cidade, eu costumava dar uma conferida na altura da torre das igrejas. Se fossem mais altas que os demais prédios, eu já tinha uma noção do que iria encontrar. Hoje, também dou uma investigada na quantidade de academias de musculação. Sim, porque, décadas atrás, eu ainda tentava descobrir quantas livrarias existiam, que tipo de livro vendiam e o volume de clientes nas lojas. Grandes ou pequenas, atualmente já quase não existem livrarias com livreiros de verdade, transformaram-se em "supermercados": muita gente dentro, mas poucos exemplares nas mãos dos frequentadores. Caixas praticamente sem ninguém para pagar por livros (outros produtos, sim). Há quem confunda livraria com biblioteca. Ou nem isso; o sujeito vai lá, lê de modo superficial, estraga o exemplar... e se manda dali sem adquirir obra alguma. 

As torres das igrejas, é verdade, já não são tão altas, mas se multiplicaram e se desdobraram em outras de variadas ladainhas sobre o mesmo Cristo & afins. Agora, igrejas e academias de musculação me ajudam a sondar os terrenos em que vou pisar. É tempo de fé e corpo em dia, cabeça prontinha para aceitar cabrestos (físicos e espirituais).
Essa é a tal pós-modernidade tão esperada? 
Parece que não. 
Infelizmente, andamos para trás. Perdemos alguma disputa/etapa no jogo da vida e fomos forçados a voltar muitas casas no tabuleiro da evolução.  



segunda-feira, 4 de julho de 2016



"Agora, mais que antes, Júlia acorda decidida e já vai direto para a sacada. Braços bem abertos. Mãos nervosas. Unhas negras querendo rasgar o ar. Se desse tempo, escreveria com o próprio sangue nas paredes: sou um pássaro de fogo que, no desesperado bater de asas, roga aos céus urgência para o seu voo. Respira fundo. Faz primeiro um sinal da cruz mecânico, apressado, mais pelos anos de condicionamento no colégio de freiras do que por fé. Depois, de olhos fechados, prepara o salto sem medo. Dali até a calçada, quase vinte andares. Mas a queda será macia, imagina, e tudo de ruim ficará para trás. Tombo rápido, morte que me chama sem dor. 

Metade do corpo saindo do parapeito... e a faxineira começa a girar a maçaneta da porta da suíte. 

Merda, Júlia resmunga, esqueci de trancar de novo! Pula de volta e disfarça, como tem feito ultimamente, ajeitando-se no chão para simular uma dessas complicadas posições de ioga. Não passa de hoje, promete a si mesma, acerto as contas e mando embora esse diacho de mulher enxerida!"

(© F. G. - trecho de novo conto sendo parido)     

   

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Nova edição




Começando agora a revisar/rever meu primeiro livro da trilogia "Subterrâneos do desejo" para uma nova edição, encontro este pretenso poema "escrito" por um personagem tesudo e insone no conto "A vigília" (de CAÇADORES NOTURNOS, Desatino/2001). Engraçado como o tempo vai me distanciando de tudo e me expulsando de certas narrativas. Quanto mais produzo novos textos, mais percebo que sou apenas um datilógrafo de vozes que surgem sabe-se lá de onde. Nem quero saber. 

Aqui vão os versos...

"SOLIDÃO"


Coração:
Chaga separando vivas
Luzes
Dores
Madrugadas
Estrelas vazias
...
Sobre meus olhos:
Caminhos
Névoa morna
Soturnos encontros
...
Por esse amor:
Estendo mia solidão
Desejos e destemperos
Noites em brasa
...
Dos templos, confesso:
Perdidos horizontes
Amargos
Verdes
...
Do osso:
Nem mais o pó
...
Deus!
Vele esse meu pranto
De pérolas vazadas
Mortas
...
De outras moradas:
Outros veludos
Ganhem ânsias
Insônias
Serenatas
...
Dos sonhos distantes:
Vozes que ouço
Vultos gelados em noites de febre
Alma inquieta 
Carne nova no cio
...
Da fome:
Esquinas 
Viadutos
Ventos
Fúrias
Apressados funerais
...
Dessas noites:
Solidão de janelas que me beijam na boca
Presságios de camas nervosas
Amanhecidos desertos
...
Por último: 
Que o sol venha e lave 
Essa mia cara branca
Meu luto
Meus vícios
Meu fim
....
Amém!



segunda-feira, 27 de junho de 2016

Idas e vindas



Faz tempo... mas, ainda cursando Relações Internacionais, eu dizia: 
"Essa União Europeia não vai longe, nem Mercosul, nem coisa alguma desse tipo". 
E rebatiam em coro: 
"Que besteira! É o futuro!" 
Daí, eu me calava. 
Ora, nasci em uma cidade de fronteira (com a Argentina e o Uruguai). Quem nasce na fronteira, sabe que fronteira sempre será fronteira, nunca deixará de ser fronteira. E, dependendo da crise (sempre há tempos de crises – no plural mesmo), as fronteiras se tornam cada vez mais fronteiras. Muros são imediatamente erguidos e/ou abismos são cavados (invisíveis ou não). Cada um que fique no seu canto. E "dentro" desses "cantos", em tempos de crises (porque sempre vão e voltam esses tempos difíceis), não é raro que outras trincheiras e cercas sejam criadas para evitar que os "diferentes" se misturem de modo perigoso aos "iguais". 
Na verdade, não há "iguais" (nem em tempos de crises, nem nunca), mas muitos pensam que são parecidos. Assim, nessa ilusão/vontade de ser idêntico aos seus falsos pares, eles se sentem mais protegidos. Não, não estão. Nunca estiveram, nem estarão a salvo de nada quando a mentira impera. E todos ("diferentes" e "iguais") vão acabar pagando um preço muito alto por isso. 

Resumo da ópera (que pode parecer bufa no início, mas geralmente é bem trágica no final): Os "feudos" jamais deixaram/deixarão de existir.


terça-feira, 21 de junho de 2016

Meu passado me condena



No último domingo, durante um café com amigos, surgiu essa conversa sobre filmes que escrevi aos 18, 19 e 20 anos para a Boca do Lixo. Alguns diretores não queriam ir para o caminho do sexo explícito, então tentavam se aventurar em outros gêneros. Escrevi vários roteiros de terror "trash", mas bem "trash" mesmo. Dois foram filmados (pelo menos é o que sei; ainda não sabia assinar contratos, era muito moleque). A ordem que recebia era: quanto pior, melhor! 
Já nem me lembrava mais desse período... Pois vasculhando na net, vi que um deles foi lançado nos EUA (há muitos fãs de "trash" por lá).
Aqui vai a capa do DVD e o trailer com dublagens horrorosas dos gritos... Naquele tempo eu assinava "Greco" como "Grecco", por insistência do diretor.  
No elenco, havia atores da Argentina e Brasil. 
Que horror!!!!

Atenção: só assista se tiver coragem (em todos os sentidos) e estômago forte!!!!






segunda-feira, 6 de junho de 2016

Nos tempos do Cabaré do Ivo


Por falar em “Ivo Rodrigues”... Minha mãe teve salão de beleza na avenida Duque de Caxias (Uruguaiana, RS) – em números diferentes, mas sempre foi lá que ela trabalhou. Cresci ouvindo todo tipo de história. Volta e meia, surgia um novo comentário sobre o Ivo. Vamos ver se me lembro de alguns...

.  Nascido em São Borja (RS) no último dia de julho na primeira década do século passado e abandonado pela família por causa dos trejeitos efeminados que iria apresentar com o tempo, Ivo foi criado na periferia de Uruguaiana por uma velha cafetina em um bordel simples (“tasca”, como se diz lá do Sul). Cuidou da mãe adotiva até o fim. Herdou dela o cabaré. Com gosto refinado e tino, digamos, bastante comercial, revigorou o lugar. Anos depois, já seria dono do bordel mais famoso e requintado da cidade, em uma região bem central.

Era um marqueteiro nato. “Segundo os mais antigos, faltando cinco dias para seu aniversário, Ivo mandava alguém de sua confiança até a emissora de rádio local e pagava dezenas de mensagens em sua homenagem. Aquilo era a largada, pois a partir daí as mensagens começavam a chegar de todas as áreas da cidade, o que fazia seu cabaré ‘bombar’ durante uma semana” (Olhares de Claudia Wonder: crônicas e outras histórias (GLS/Summus, 2008, p. 129-130). 
  
Ele gostava de andar de carruagem (carruagem, aliás, que está exposta hoje no Centro Cultural de Uruguaiana) e ia comprar tecidos finos nas melhores lojas da cidade;

. Embora se vestisse de mulher, fazia questão de ser tratado no masculino;

. Tinha joias caras, perfumes importados e uma coleção de bonecas e outros bibelôs trazidos de vários países;

Meninas “perdidas” (assim eram chamadas as moças que transavam antes do casamento; pior ainda... quando engravidavam) eram chutadas para fora de casa, e Ivo as recolhia nas praças, botecos, rodoviária e estação de trem. Se quisessem ser “da vida”, eram treinadas para tal. Caso contrário, podiam trabalhar em outras atividades no cabaré. Seus filhos (quando elas não queriam abortar), dizem, eram apadrinhados por ele. Não só para moças “perdidas”, mas as portas da casa do Ivo jamais estiveram fechadas para qualquer outra pessoa que precisasse de ajuda;

Para costureiras, encomendava vestidos para ele e suas “meninas”, porém enviava medidas e modelos. Se a roupa precisasse de algum acerto, as instruções seriam enviadas por escrito. Não permitia que as costureiras frequentassem o seu cabaré, nem autorizava suas meninas irem até elas;

Em festas, como Páscoa, Dia das Crianças, Dia das Mães, Natal etc., não havia expediente no cabaré, mas filas enormes se formavam na porta principal. Nenhuma pessoa carente (de qualquer idade, raça etc.) saía dali de mãos abanando;

. Certa vez, um tio meu, muito danado, mas ainda menor de idade, decidiu frequentar o tal cabaré. Sempre muito possante, ele aparentava ser mais velho. Minha mãe, responsável por este irmão (naquele tempo, era comum que as irmãs mais velhas terminassem de criar os irmãos caçulas), descobriu as aventuras do rapazote. Sempre muito durona, foi lá e bateu na porta do cabaré. Mas o Ivo não permitiu que ela entrasse, apenas pediu a um funcionário que ouvisse atentamente e lhe trouxesse a queixa da vizinha. Para o desgosto do meu tio, nunca mais foi permitido que ele entrasse no cabaré;

. Quando minha irmã nasceu, em sinal de paz e simpatia, mandou que entregassem aos meus pais um joguinho de talheres para criança, de prata. Minha mãe diz que ainda guarda tal presente do Ivo;  

Também contam que ele, vestido de mulher, carregava um facão escondido embaixo da saia. Quando houvesse confusão no cabaré, ele acabava logo com a briga. Até os fuzileiros e os brigadianos (como são conhecidos os da Brigada Militar) o respeitavam. Eram os mais “brigões”. Porém bastava o Ivo gritar para que se retirassem da casa, que eles obedeciam prontamente;

Sua filantropia ia mais além da distribuição de presentes e alimentos aos necessitados, contam que ajudou muitos jovens em seus estudos, alguns se tornaram “doutores”;

. Na época de Getúlio e Perón, políticos importantes iam ao seu cabaré para tratar de assuntos internacionais;

. Aliás, era comum dizer que, em Uruguaiana, havia apenas dois pontos turísticos: a ponte internacional e o cabaré do Ivo;

. No carnaval, Ivo costumava ser destaque do bloco do Clube Caixeiral. Usava sempre a fantasia mais luxuosa dos desfiles. Era ovacionado. Para evitar a debandada geral do público, desfilava por último. Depois que ele passava, muitos iam embora; tinham ido até lá apenas para vê-lo;

. Nos bailes de carnaval, ele e sua “corte” passavam para cumprimentar os foliões. Era anunciado... Recebia aplausos enquanto dava um giro pelo salão. Agradecia. E logo ia embora. Isso era tradicional. Ou seja: a ilustre visita do Ivo Rodrigues em vários clubes da cidade fazia parte da programação do baile;

Não se sabe muito bem o real motivo, mas chegou um momento em que o cabaré do Ivo começou a decair. Parece que uma filha de criação montou outra casa – a contragosto do pai. A jovem fora criada em colégios caros, o pai não queria que ela seguisse naquele ramo. Mas a filha não só montou um cabaré maior e mais moderno, como fez concorrência direta... Daí veio o fim dos dias de glória do Ivo. Alguns comentam que isso aconteceu mais por desgosto do que por ele, de fato, ter perdido a mão no ramo dos grandes bordéis;

Pobre, velho e com a saúde debilitada devido ao uso abusivo de álcool nos últimos tempos, foi durante uma briga de rua em fevereiro de 1974 que o Ivo morreu. Tinha 66 anos;

Mesmo nessa fase final, decadente e já quase esquecido, uma multidão foi ao seu velório e acompanhou a pé o caixão pela avenida Duque de Caxias até o Cemitério Municipal. Calçadas lotadas... do mesmo jeito que elas ficavam nos desfiles de carnaval, quando o Ivo se exibia para receber todos os aplausos;

. Hoje, em Uruguaiana, Ivo Rodrigues é nome de rua, escola de samba e, no dia de Finados, dizem que há romarias para prestar homenagens em seu túmulo;

Parece que há um projeto (ainda não aprovado) para que seja esculpida uma estátua em sua homenagem... Mas os tempos mudaram.

Claro que muitas “passagens” desta história podem ser puro folclore. Na “biografia” dos mitos, a realidade acaba se misturando à fantasia. Ainda vou pesquisar mais sobre a trajetória do Ivo... Um desafio que talvez possa render um novo trabalho.   


sábado, 28 de maio de 2016

Vale a pena!!!!!!






Elenco e espetáculo impecáveis... mas a entrega (corpo e alma) da Maria Luisa Mendonça nessa montagem de Um bonde chamado desejo é impressionante! Não é apenas uma grande atriz em cena, é algo inexplicável, um ser que, mais que interpretar com as bênçãos dos deuses do palco, "veste" por completo o teatro, como já escreveu Proust ao ver Sarah Bernhardt em cena. 

O Juliano Cazarré não deixa nada a desejar ao Stanley Kowalski do Marlon Brando (tanto do teatro quanto da versão para a telona). É um ator de total entrega, sem os pudores babacas dos que se deixam engessar pela maldição dos tais galãs de telenovelas. É ATOR e ponto final.

http://www.morenteforte.com/pecas/em-cartaz/bonde-chamado-desejo/

Recomendo MESMO! Tennessee Williams é atemporal. Ou mais que isso: bem atual nestes tempos de machismos e retorno à Idade Média.

"Eu te digo o que eu quero. Magia! Sim, magia! Eu tenho que dar isso pras pessoas. Eu transfiguro as coisas para elas. Eu não digo a verdade. Eu digo o que deveria ser a verdade. E se isso é pecado, então me condenem à danação!" (Blanche DuBois).

Esta prorrogação de temporada vai até 26 de junho. 

Tem que correr lá! Comprar com antecedência... Merecidamente, as sessões lotam!

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Cada um vê o camaleão que pode (ou quer)




A arte não tem uma função óbvia e prática. Não é, por exemplo, como consumir um prato cheio de comida. Ela provoca movimentos, desloca, tem a força transgressora de oferecer bem mais do que os nossos sentidos podem captar de imediato. Aguça lentamente outros canais de percepção do real. 

Não é item de cardápio de "fast-food". Faz parte da alta gastronomia (ainda que, num primeiro momento, o prato nos pareça abjeto/indigesto). Precisa de tempo, paciência e muita entrega (tanto do artista quanto do público). 

Quem ainda não tem esse grau de entendimento, certamente veria neste vídeo do "YouTube" apenas o bicho, a imitação de um réptil. Os intelectualmente limitados/despreparados, apenas duas mulheres nuas, uma exibição indecente que faz apologia à atração/relação lésbica.

Vem desse tipo de pensamento (curto) a ideia equivocada de que artistas são pessoas vagabundas, que vivem do dinheiro alheio. Ora, no fundo, todos nós vivemos de vendas de serviços e/ou mercadorias. 

Cada um vende o que tem de melhor a oferecer. Compra quem quiser e/ou puder.

A propósito, ateus como Michelangelo Buonarroti  e Leonardo da Vinci, graças ao generoso mecenato de religiosos e grandes monarcas, deixaram obras magníficas exatamente sobre o que eles não acreditavam. Exemplos nesse sentido não faltam... Portanto, independente do que é ou deixa de ser o artista (como pessoa), o que vale é o que ele é capaz de produzir. E muitas obras, só com o tempo serão compreendidas.

Arthur Rimbaud ("descoberto" e valorizado apenas depois de morto) que o diga: "Enfant, que fais-tu sur la terre? /  – J'attends, j'attends, j'attends!..." ("Filho, que fazes na Terra? / – Eu espero, espero, espero!..." – Em tradução livre.) 

Levei muito, muito, muito tempo para me reconhecer/assumir como um criador. Foi extremamente difícil e doloroso me libertar dessas vozes: "Um vagabundo, é isso que você quer ser? Por que não arranja um trabalho decente? Vai acabar nas ruas, como um mendigo..."

Até hoje, de vez em quando, elas ecoam na minha mente, fazendo com que eu me sinta culpado por ter esse dom e, por isso, passar a vida inteira nadando contra tudo e todos. E pior: quase sempre vivendo das sobras.