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sábado, 6 de agosto de 2016

Mundo sem arte

Fé e hipocrisia... Esse pregador (E. Dewey Smith, da House of Hope em Atlanta, Geórgia) dá um chute em muitos "rezadores" (de todo tipo) que se ajoelham para Deus, mas logo saem tacando pedra no próximo (em especial, nos homossexuais). 
O mesmo vale para outros hipócritas, que vivem atacando artistas, chamando-os de vagabundos, perdulários, viciados, degenerados, inúteis etc. 
Ontem, na abertura dos Jogos Olímpicos de 2016, em um espetáculo com poucos recursos técnicos e muita criatividade/garra, o país sentiu um bom alívio, não? E, vendo aquilo, pensei muito nas perseguições atuais que a classe artística vem sofrendo no Brasil. Ora, se temos ainda algum "crédito" além fronteiras, devemos muito a uma infinidade de artistas talentosos/desbravadores, não a diplomatas, políticos, burocratas, empresários etc.
Pois bem, tiremos do mundo os tais "vagabundos, perdulários, degenerados, inúteis etc." e, como diz esse corajoso pregador, "vamos ver quantas canções poderemos cantar no próximo domingo". 
Apontemos, então, um período da nossa história (das cavernas até hoje) sem a arte... Sem crenças, religiões e afins, muitos povos sobreviveram e ainda sobrevivem muito-bem-obrigado em algumas partes do planeta. Sem qualquer expressão artística, desconheço.
Um bom domingo a todos!




sexta-feira, 22 de julho de 2016

Pós-modernidade?



Andei sumido, porque não tinha muito o que dizer. Mas vamos lá...

Quando jovem, antes de visitar e/ou me hospedar numa cidade, eu costumava dar uma conferida na altura da torre das igrejas. Se fossem mais altas que os demais prédios, eu já tinha uma noção do que iria encontrar. Hoje, também dou uma investigada na quantidade de academias de musculação. Sim, porque, décadas atrás, eu ainda tentava descobrir quantas livrarias existiam, que tipo de livro vendiam e o volume de clientes nas lojas. Grandes ou pequenas, atualmente já quase não existem livrarias com livreiros de verdade, transformaram-se em "supermercados": muita gente dentro, mas poucos exemplares nas mãos dos frequentadores. Caixas praticamente sem ninguém para pagar por livros (outros produtos, sim). Há quem confunda livraria com biblioteca. Ou nem isso; o sujeito vai lá, lê de modo superficial, estraga o exemplar... e se manda dali sem adquirir obra alguma. 

As torres das igrejas, é verdade, já não são tão altas, mas se multiplicaram e se desdobraram em outras de variadas ladainhas sobre o mesmo Cristo & afins. Agora, igrejas e academias de musculação me ajudam a sondar os terrenos em que vou pisar. É tempo de fé e corpo em dia, cabeça prontinha para aceitar cabrestos (físicos e espirituais).
Essa é a tal pós-modernidade tão esperada? 
Parece que não. 
Infelizmente, andamos para trás. Perdemos alguma disputa/etapa no jogo da vida e fomos forçados a voltar muitas casas no tabuleiro da evolução.  



segunda-feira, 4 de julho de 2016



"Agora, mais que antes, Júlia acorda decidida e já vai direto para a sacada. Braços bem abertos. Mãos nervosas. Unhas negras querendo rasgar o ar. Se desse tempo, escreveria com o próprio sangue nas paredes: sou um pássaro de fogo que, no desesperado bater de asas, roga aos céus urgência para o seu voo. Respira fundo. Faz primeiro um sinal da cruz mecânico, apressado, mais pelos anos de condicionamento no colégio de freiras do que por fé. Depois, de olhos fechados, prepara o salto sem medo. Dali até a calçada, quase vinte andares. Mas a queda será macia, imagina, e tudo de ruim ficará para trás. Tombo rápido, morte que me chama sem dor. 

Metade do corpo saindo do parapeito... e a faxineira começa a girar a maçaneta da porta da suíte. 

Merda, Júlia resmunga, esqueci de trancar de novo! Pula de volta e disfarça, como tem feito ultimamente, ajeitando-se no chão para simular uma dessas complicadas posições de ioga. Não passa de hoje, promete a si mesma, acerto as contas e mando embora esse diacho de mulher enxerida!"

(© F. G. - trecho de novo conto sendo parido)     

   

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Nova edição




Começando agora a revisar/rever meu primeiro livro da trilogia "Subterrâneos do desejo" para uma nova edição, encontro este pretenso poema "escrito" por um personagem tesudo e insone no conto "A vigília" (de CAÇADORES NOTURNOS, Desatino/2001). Engraçado como o tempo vai me distanciando de tudo e me expulsando de certas narrativas. Quanto mais produzo novos textos, mais percebo que sou apenas um datilógrafo de vozes que surgem sabe-se lá de onde. Nem quero saber. 

Aqui vão os versos...

"SOLIDÃO"


Coração:
Chaga separando vivas
Luzes
Dores
Madrugadas
Estrelas vazias
...
Sobre meus olhos:
Caminhos
Névoa morna
Soturnos encontros
...
Por esse amor:
Estendo mia solidão
Desejos e destemperos
Noites em brasa
...
Dos templos, confesso:
Perdidos horizontes
Amargos
Verdes
...
Do osso:
Nem mais o pó
...
Deus!
Vele esse meu pranto
De pérolas vazadas
Mortas
...
De outras moradas:
Outros veludos
Ganhem ânsias
Insônias
Serenatas
...
Dos sonhos distantes:
Vozes que ouço
Vultos gelados em noites de febre
Alma inquieta 
Carne nova no cio
...
Da fome:
Esquinas 
Viadutos
Ventos
Fúrias
Apressados funerais
...
Dessas noites:
Solidão de janelas que me beijam na boca
Presságios de camas nervosas
Amanhecidos desertos
...
Por último: 
Que o sol venha e lave 
Essa mia cara branca
Meu luto
Meus vícios
Meu fim
....
Amém!



segunda-feira, 27 de junho de 2016

Idas e vindas



Faz tempo... mas, ainda cursando Relações Internacionais, eu dizia: 
"Essa União Europeia não vai longe, nem Mercosul, nem coisa alguma desse tipo". 
E rebatiam em coro: 
"Que besteira! É o futuro!" 
Daí, eu me calava. 
Ora, nasci em uma cidade de fronteira (com a Argentina e o Uruguai). Quem nasce na fronteira, sabe que fronteira sempre será fronteira, nunca deixará de ser fronteira. E, dependendo da crise (sempre há tempos de crises – no plural mesmo), as fronteiras se tornam cada vez mais fronteiras. Muros são imediatamente erguidos e/ou abismos são cavados (invisíveis ou não). Cada um que fique no seu canto. E "dentro" desses "cantos", em tempos de crises (porque sempre vão e voltam esses tempos difíceis), não é raro que outras trincheiras e cercas sejam criadas para evitar que os "diferentes" se misturem de modo perigoso aos "iguais". 
Na verdade, não há "iguais" (nem em tempos de crises, nem nunca), mas muitos pensam que são parecidos. Assim, nessa ilusão/vontade de ser idêntico aos seus falsos pares, eles se sentem mais protegidos. Não, não estão. Nunca estiveram, nem estarão a salvo de nada quando a mentira impera. E todos ("diferentes" e "iguais") vão acabar pagando um preço muito alto por isso. 

Resumo da ópera (que pode parecer bufa no início, mas geralmente é bem trágica no final): Os "feudos" jamais deixaram/deixarão de existir.


terça-feira, 21 de junho de 2016

Meu passado me condena



No último domingo, durante um café com amigos, surgiu essa conversa sobre filmes que escrevi aos 18, 19 e 20 anos para a Boca do Lixo. Alguns diretores não queriam ir para o caminho do sexo explícito, então tentavam se aventurar em outros gêneros. Escrevi vários roteiros de terror "trash", mas bem "trash" mesmo. Dois foram filmados (pelo menos é o que sei; ainda não sabia assinar contratos, era muito moleque). A ordem que recebia era: quanto pior, melhor! 
Já nem me lembrava mais desse período... Pois vasculhando na net, vi que um deles foi lançado nos EUA (há muitos fãs de "trash" por lá).
Aqui vai a capa do DVD e o trailer com dublagens horrorosas dos gritos... Naquele tempo eu assinava "Greco" como "Grecco", por insistência do diretor.  
No elenco, havia atores da Argentina e Brasil. 
Que horror!!!!

Atenção: só assista se tiver coragem (em todos os sentidos) e estômago forte!!!!






segunda-feira, 6 de junho de 2016

Nos tempos do Cabaré do Ivo


Por falar em “Ivo Rodrigues”... Minha mãe teve salão de beleza na avenida Duque de Caxias (Uruguaiana, RS) – em números diferentes, mas sempre foi lá que ela trabalhou. Cresci ouvindo todo tipo de história. Volta e meia, surgia um novo comentário sobre o Ivo. Vamos ver se me lembro de alguns...

.  Nascido em São Borja (RS) no último dia de julho na primeira década do século passado e abandonado pela família por causa dos trejeitos efeminados que iria apresentar com o tempo, Ivo foi criado na periferia de Uruguaiana por uma velha cafetina em um bordel simples (“tasca”, como se diz lá do Sul). Cuidou da mãe adotiva até o fim. Herdou dela o cabaré. Com gosto refinado e tino, digamos, bastante comercial, revigorou o lugar. Anos depois, já seria dono do bordel mais famoso e requintado da cidade, em uma região bem central.

Era um marqueteiro nato. “Segundo os mais antigos, faltando cinco dias para seu aniversário, Ivo mandava alguém de sua confiança até a emissora de rádio local e pagava dezenas de mensagens em sua homenagem. Aquilo era a largada, pois a partir daí as mensagens começavam a chegar de todas as áreas da cidade, o que fazia seu cabaré ‘bombar’ durante uma semana” (Olhares de Claudia Wonder: crônicas e outras histórias (GLS/Summus, 2008, p. 129-130). 
  
Ele gostava de andar de carruagem (carruagem, aliás, que está exposta hoje no Centro Cultural de Uruguaiana) e ia comprar tecidos finos nas melhores lojas da cidade;

. Embora se vestisse de mulher, fazia questão de ser tratado no masculino;

. Tinha joias caras, perfumes importados e uma coleção de bonecas e outros bibelôs trazidos de vários países;

Meninas “perdidas” (assim eram chamadas as moças que transavam antes do casamento; pior ainda... quando engravidavam) eram chutadas para fora de casa, e Ivo as recolhia nas praças, botecos, rodoviária e estação de trem. Se quisessem ser “da vida”, eram treinadas para tal. Caso contrário, podiam trabalhar em outras atividades no cabaré. Seus filhos (quando elas não queriam abortar), dizem, eram apadrinhados por ele. Não só para moças “perdidas”, mas as portas da casa do Ivo jamais estiveram fechadas para qualquer outra pessoa que precisasse de ajuda;

Para costureiras, encomendava vestidos para ele e suas “meninas”, porém enviava medidas e modelos. Se a roupa precisasse de algum acerto, as instruções seriam enviadas por escrito. Não permitia que as costureiras frequentassem o seu cabaré, nem autorizava suas meninas irem até elas;

Em festas, como Páscoa, Dia das Crianças, Dia das Mães, Natal etc., não havia expediente no cabaré, mas filas enormes se formavam na porta principal. Nenhuma pessoa carente (de qualquer idade, raça etc.) saía dali de mãos abanando;

. Certa vez, um tio meu, muito danado, mas ainda menor de idade, decidiu frequentar o tal cabaré. Sempre muito possante, ele aparentava ser mais velho. Minha mãe, responsável por este irmão (naquele tempo, era comum que as irmãs mais velhas terminassem de criar os irmãos caçulas), descobriu as aventuras do rapazote. Sempre muito durona, foi lá e bateu na porta do cabaré. Mas o Ivo não permitiu que ela entrasse, apenas pediu a um funcionário que ouvisse atentamente e lhe trouxesse a queixa da vizinha. Para o desgosto do meu tio, nunca mais foi permitido que ele entrasse no cabaré;

. Quando minha irmã nasceu, em sinal de paz e simpatia, mandou que entregassem aos meus pais um joguinho de talheres para criança, de prata. Minha mãe diz que ainda guarda tal presente do Ivo;  

Também contam que ele, vestido de mulher, carregava um facão escondido embaixo da saia. Quando houvesse confusão no cabaré, ele acabava logo com a briga. Até os fuzileiros e os brigadianos (como são conhecidos os da Brigada Militar) o respeitavam. Eram os mais “brigões”. Porém bastava o Ivo gritar para que se retirassem da casa, que eles obedeciam prontamente;

Sua filantropia ia mais além da distribuição de presentes e alimentos aos necessitados, contam que ajudou muitos jovens em seus estudos, alguns se tornaram “doutores”;

. Na época de Getúlio e Perón, políticos importantes iam ao seu cabaré para tratar de assuntos internacionais;

. Aliás, era comum dizer que, em Uruguaiana, havia apenas dois pontos turísticos: a ponte internacional e o cabaré do Ivo;

. No carnaval, Ivo costumava ser destaque do bloco do Clube Caixeiral. Usava sempre a fantasia mais luxuosa dos desfiles. Era ovacionado. Para evitar a debandada geral do público, desfilava por último. Depois que ele passava, muitos iam embora; tinham ido até lá apenas para vê-lo;

. Nos bailes de carnaval, ele e sua “corte” passavam para cumprimentar os foliões. Era anunciado... Recebia aplausos enquanto dava um giro pelo salão. Agradecia. E logo ia embora. Isso era tradicional. Ou seja: a ilustre visita do Ivo Rodrigues em vários clubes da cidade fazia parte da programação do baile;

Não se sabe muito bem o real motivo, mas chegou um momento em que o cabaré do Ivo começou a decair. Parece que uma filha de criação montou outra casa – a contragosto do pai. A jovem fora criada em colégios caros, o pai não queria que ela seguisse naquele ramo. Mas a filha não só montou um cabaré maior e mais moderno, como fez concorrência direta... Daí veio o fim dos dias de glória do Ivo. Alguns comentam que isso aconteceu mais por desgosto do que por ele, de fato, ter perdido a mão no ramo dos grandes bordéis;

Pobre, velho e com a saúde debilitada devido ao uso abusivo de álcool nos últimos tempos, foi durante uma briga de rua em fevereiro de 1974 que o Ivo morreu. Tinha 66 anos;

Mesmo nessa fase final, decadente e já quase esquecido, uma multidão foi ao seu velório e acompanhou a pé o caixão pela avenida Duque de Caxias até o Cemitério Municipal. Calçadas lotadas... do mesmo jeito que elas ficavam nos desfiles de carnaval, quando o Ivo se exibia para receber todos os aplausos;

. Hoje, em Uruguaiana, Ivo Rodrigues é nome de rua, escola de samba e, no dia de Finados, dizem que há romarias para prestar homenagens em seu túmulo;

Parece que há um projeto (ainda não aprovado) para que seja esculpida uma estátua em sua homenagem... Mas os tempos mudaram.

Claro que muitas “passagens” desta história podem ser puro folclore. Na “biografia” dos mitos, a realidade acaba se misturando à fantasia. Ainda vou pesquisar mais sobre a trajetória do Ivo... Um desafio que talvez possa render um novo trabalho.   


sábado, 28 de maio de 2016

Vale a pena!!!!!!






Elenco e espetáculo impecáveis... mas a entrega (corpo e alma) da Maria Luisa Mendonça nessa montagem de Um bonde chamado desejo é impressionante! Não é apenas uma grande atriz em cena, é algo inexplicável, um ser que, mais que interpretar com as bênçãos dos deuses do palco, "veste" por completo o teatro, como já escreveu Proust ao ver Sarah Bernhardt em cena. 

O Juliano Cazarré não deixa nada a desejar ao Stanley Kowalski do Marlon Brando (tanto do teatro quanto da versão para a telona). É um ator de total entrega, sem os pudores babacas dos que se deixam engessar pela maldição dos tais galãs de telenovelas. É ATOR e ponto final.

http://www.morenteforte.com/pecas/em-cartaz/bonde-chamado-desejo/

Recomendo MESMO! Tennessee Williams é atemporal. Ou mais que isso: bem atual nestes tempos de machismos e retorno à Idade Média.

"Eu te digo o que eu quero. Magia! Sim, magia! Eu tenho que dar isso pras pessoas. Eu transfiguro as coisas para elas. Eu não digo a verdade. Eu digo o que deveria ser a verdade. E se isso é pecado, então me condenem à danação!" (Blanche DuBois).

Esta prorrogação de temporada vai até 26 de junho. 

Tem que correr lá! Comprar com antecedência... Merecidamente, as sessões lotam!

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Cada um vê o camaleão que pode (ou quer)




A arte não tem uma função óbvia e prática. Não é, por exemplo, como consumir um prato cheio de comida. Ela provoca movimentos, desloca, tem a força transgressora de oferecer bem mais do que os nossos sentidos podem captar de imediato. Aguça lentamente outros canais de percepção do real. 

Não é item de cardápio de "fast-food". Faz parte da alta gastronomia (ainda que, num primeiro momento, o prato nos pareça abjeto/indigesto). Precisa de tempo, paciência e muita entrega (tanto do artista quanto do público). 

Quem ainda não tem esse grau de entendimento, certamente veria neste vídeo do "YouTube" apenas o bicho, a imitação de um réptil. Os intelectualmente limitados/despreparados, apenas duas mulheres nuas, uma exibição indecente que faz apologia à atração/relação lésbica.

Vem desse tipo de pensamento (curto) a ideia equivocada de que artistas são pessoas vagabundas, que vivem do dinheiro alheio. Ora, no fundo, todos nós vivemos de vendas de serviços e/ou mercadorias. 

Cada um vende o que tem de melhor a oferecer. Compra quem quiser e/ou puder.

A propósito, ateus como Michelangelo Buonarroti  e Leonardo da Vinci, graças ao generoso mecenato de religiosos e grandes monarcas, deixaram obras magníficas exatamente sobre o que eles não acreditavam. Exemplos nesse sentido não faltam... Portanto, independente do que é ou deixa de ser o artista (como pessoa), o que vale é o que ele é capaz de produzir. E muitas obras, só com o tempo serão compreendidas.

Arthur Rimbaud ("descoberto" e valorizado apenas depois de morto) que o diga: "Enfant, que fais-tu sur la terre? /  – J'attends, j'attends, j'attends!..." ("Filho, que fazes na Terra? / – Eu espero, espero, espero!..." – Em tradução livre.) 

Levei muito, muito, muito tempo para me reconhecer/assumir como um criador. Foi extremamente difícil e doloroso me libertar dessas vozes: "Um vagabundo, é isso que você quer ser? Por que não arranja um trabalho decente? Vai acabar nas ruas, como um mendigo..."

Até hoje, de vez em quando, elas ecoam na minha mente, fazendo com que eu me sinta culpado por ter esse dom e, por isso, passar a vida inteira nadando contra tudo e todos. E pior: quase sempre vivendo das sobras.


sexta-feira, 13 de maio de 2016

Filme antigo




Collor assumiu a presidência e, em pouquíssimos dias, acabou com a Embrafilme, a Funarte e a cultura em geral. Pensamento é algo perigoso. Tem que ser calado ou mantido com rédea curta.

Bem, mas Collor votou lá, no Senado, a favor do impedimento da Dilma, alegando que ela "usou indevidamente o dinheiro público". Pois é, o mesmo que confiscou a grana de todos nós e tentou calar um país. 

Hoje, filme velho rebobinado, lá se vai novamente a cultura. Repito: pensar é uma ameaça em países em que o povo deve apenas ser adestrado para ser pacífico, obediente e continuar apertando parafusos nas fábricas (de preferência, estrangeiras)! Vejam o lema positivista na bandeira, "ordem e progresso"... Só falta completar, explicando de quem é o progresso, da grande maioria dos brasileiros nunca foi. Vamos lá... Quanto ao "novo" ministério, nem é preciso tecer comentários, basta "dar um Google" em cada nome (mas isso tem que ser feito rápido, antes que os "currículos" sejam reescritos e se tornem exemplares num piscar de olhos). Em paralelo, alguns suspeitos de corrupção já foram (ou estão quase) "inocentados". Mais adiante, saídos de uma reunião com o Temer, dois "homens de Deus" (Malafaia e Feliciano) exibem sorrisos vitoriosos. Em postagem recente, Malafaia comemora o fim do Minc... Com outras palavras, ele alega que "aquilo" era um antro de esquerdopatas.

Pois é... Amigos gays, artistas, pensadores e afins, preparem seus passaportes, vistos, malas, tudo! As fogueiras começam a ser montadas.

Sarcasmo? Não. O tempo mostrará...

Não estou brincando.

Infelizmente, falo sério.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE 1: Não, nunca captei recursos para projetos via Lei Rouanet. Sim, já recebi vários prêmios em dinheiro, bens (um carro) e em troféus (em "concorrências" públicas e privadas), mas foi graças a qualidade artística dos projetos apresentados. Jamais fui filiado a partidos políticos ou fiz conchavos para ganhar algo. Sim, sou homossexual e tenho um relacionamento fixo há quase vinte anos. Sim, como em qualquer país minimamente desenvolvido, a cultura deve ter mecanismos de financiamento governamental. Não, não sou satanista, uma aberração da natureza, nem esquerdopata (como o sr. Malafaia e outros "homens de Deus" provavelmente queiram me "catalogar")... apenas um contador de histórias que também tem ajudado outros autores (de ficção ou não) a publicar seus livros.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE 2: Por gentileza, não compartilhem esta postagem; trata-se de um desabafo pessoal, uma indignação... não uma "campanha". Já está publicada, leia quem quiser.



quinta-feira, 12 de maio de 2016

A maldição de Eva



Certa vez, por telefone, a Rose Marie Muraro (uma das feministas pioneiras deste país) me disse que não queria mais saber de escrever sobre as mulheres: 

"Estive lá, no meio daquele inferno criado e dominado pelos homens, lutei que nem louca. E sabe o que consegui? Um câncer que quase acabou comigo."


Camille Paglia, outra intelectual que lutava pelos direitos das mulheres, mas que também acabou desistindo disso, escreveu o seguinte em um ensaio erudito de quase 700 páginas, lançado nos anos 1990, q
ue trata de arte, civilização e sexo (em trechos aqui editados): 

“O corpo feminino é uma máquina ctônica, indiferente ao espírito que o habita. Organicamente, tem uma missão, a gravidez, que podemos passar a vida repelindo. A natureza só se importa com a espécie, jamais com os indivíduos: as humilhantes dimensões desse fato biológico são experimentadas de maneira mais direta pelas mulheres, que provavelmente por causa disso têm maior realismo e sabedoria que os homens. [...] A gravidez demonstra o caráter determinista da sexualidade da mulher. Toda mulher grávida tem o corpo e o ego tomados por uma força ctônica além do seu controle. Na gravidez desejada, é um sacrifício feliz. Mas na indesejada, iniciada por um estupro ou azar, é um horror. Pois o feto [torna-se então] um tumor benigno, um vampiro que rouba para viver. O chamado milagre do nascimento é a natureza dando as cartas. [...] O insuportável mistério do corpo feminino aplica-se a todos os aspectos das relações dos homens com as mulheres. Que aparência terá aí dentro? Ela tem orgasmo? É mesmo meu filho? Quem foi de fato o meu pai? O mistério envolve a sexualidade da mulher. Esse mistério é o principal motivo para o aprisionamento que o homem lhe impôs. [...] A mulher é velada. O despedaçamento violento desse véu talvez seja um dos motivos dos estupros por gangues e assassinatos com estupros [...]. Os crimes sexuais são sempre masculinos, nunca femininos, porque tais crimes são ataques conceitualizadores à inatingível onipotência da mulher e da natureza. O corpo da mulher contém uma célula de noite arcaica, onde todo conhecimento deve parar. Esse é o profundo significado por trás do ‘striptease’, uma dança sagrada de origens pagãs, que, como a prostituição, o cristianismo jamais conseguiu liquidar. As danças eróticas de machos não são comparáveis, pois uma mulher nua leva para fora do palco uma ocultação final, aquela escuridão ctônica da qual viemos.” (Personas sexuais: arte e decadência de Nefertite a Emily Dickinson, Companhia das Letras, 1992, p. 21-22 e 32,)

Por que transcrevi estes trechos aparentemente desconexos da fala da Rose e da obra da Camille? 

Bem, os que estiverem atentos a essa nova-velha onda (mundial) machista, patriarcal, heterocentrada, misógina, sexista etc. entenderão o motivo. 

Mais que disputas/desavenças nas políticas partidárias, o que parece ter (re)começado no Brasil e em outros países (inclusive, nos que são considerados “mais evoluídos” – vejam o que os ultraconservadores estão tentando fazer com Angela Merkel... no caso dos refugiados) é um ataque (já nem tão) velado às conquistas femininas/sociais. 


Estou exagerando? 

Talvez sim... 

Mas, embora não acredite que ela se eleja, penso que Hillary Clinton também será perseguida e destruída tão logo “se atreva” a não seguir a cartilha machista do poder.   

Tomara que eu esteja errado!!!! Aliás, é o que mais tenho dito ultimamente.




sexta-feira, 6 de maio de 2016

Minha mãe...

Então... Vendo, desde cedinho, que muitos postaram fotos com suas mães, eu disse: “Vou postar a nossa!” E havia algumas. Tá bom: pelo menos... uma. Juntos, posamos para poucas fotos. Só agora percebi isso. E o tempo que foi passando cada vez mais apurado (em "gauchês", significa apressado, impaciente...), etapas que deixaram de ser registradas em imagens, mas que ficaram bem guardadas na lembrança. 


E cadê a tal foto? 



Vasculhei tudo, e nada... A verdade é que tenho a estranha mania de não guardar por muito tempo fotos em papel. Daí, fui lá, nos baús do Rogério. Quando jogo fora, ele (na surdina) guarda tudo outra vez, mas nas coisas dele. 



Nada, não encontrava foto minha com a mãe. Às vezes, eu guardava fotos em livros. Mas volta e meia, ao me desfazer deles... “adeus fotografias”. Devem andar viajando por aí, de mão em mão. Sei, devia ter mais cuidado... 



UFA! Salvo pelo Rogério: achei! Nesta, já bem antiga, da esquerda para a direita: Tais Freitas​ (prima), Thomás Freitas Pinto​ (primo), Felipe (eu), Negrinha (mãe) e Elizabeth (mana). 




Mas, voltando ao tema... De saúde frágil, minha mãe é uma das mulheres mais guerreiras que já conheci. Decidida. Imponente e feroz até no signo: leão. Dela, fui companheiro de estrada. Como tinha salão de beleza e loja, desde muito cedo, nas férias escolares, ia com ela... feliz da vida... cada vez mais longe (Santa Catarina, Paraná, São Paulo...), buscar mercadorias. Até o dia em que fiz as malas... e saí de casa. 


“Não quero que olhes para trás para ver tua mãe chorando”, foi o que ela me disse. 



Eu tinha 17 anos, queria sair logo do ninho. Quase todos da minha geração queriam isso. Nem bem eu havia colocado os pés em São Paulo, ela me ligou: “Puxa, nem um tchau!” E eu: “Mas tu não me pediste para não olhar para trás?” (“Tu”, porque meus pais detestam ser tratados por “senhores”.)



E foi nesse vaivém de beijos e rusgas que aprendemos a dançar a nossa difícil coreografia familiar. Há dias de amor e fases de muita turbulência. Somos muito parecidos. Ambos com um temperamento do cão. Da mesma forma que rimos, rosnamos um para o outro. Mas, bem no fundo, sei que nos admiramos muito. Um jeito de amar à distância, reconhecendo e respeitando territórios. Sem filtros ou mitos. Amor transparente. Não poderia haver outro sentimento entre dois obstinados, nem eu saberia viver metido num amor melado, convencional e piegas. Em sinal de gratidão, já dediquei vários livros a ela. Muitas mulheres dos meus textos vêm dela, dessa leoa furiosa e passional.



Reconheço que voltei poucas vezes ao Sul. Voltarei em breve (não perguntem quando, porque desisto). Demoro anos, uma década... Voltando, faço “visita de médico” (quatro dias, no máximo; mais que isso, vamos parar nas páginas policiais, na jaula de algum circo ou num hospício... rsrs!)... mas volto. É sempre bom voltar às origens, resgatar memórias, rever paisagens, tentar desatar alguns nós... Enfim, como na música de Astor Piazzolla e letra de Fernando "Pino" Solanas...

Vuelvo al Sur,
como se vuelve siempre al amor,
vuelvo a vos,
con mi deseo, con mi temor.
Llevo el Sur,
como un destino del corazon,
soy del Sur,
como los aires del bandoneon. 
Sueño el sur
Inmensa luna, cielo al reves.
Vuelvo al sur
El tiempo abierto y su despues
Quiero al sur.
Su buena gente, su dignidad.
Siento al sur.
Como tu cuerpo en la intimidad.
Te quiero, sur 
Te quiero, sur...






terça-feira, 26 de abril de 2016

"Um cavalo domado pela própria sombra"




Volta e meia, quando me bate o desânimo, releio todos os romances de Jean Genet, vários ao mesmo tempo. Já nem sei quantas vezes fiz isso. 
Bem, sempre digo que contar histórias é um constante exercício de humildade. Não sento e escrevo aquilo que quero, apenas vou me deixando levar pela história que quer/precisa ser contada. Há um narrador para cada texto. Eles são sempre muito ciumentos e possessivos. Ou você se entrega e se anula na estiva que é a escrita... ou será jogado para fora do processo de criação, sem piedade. Comigo é assim: ouço as vozes e vou registrando tudo aquilo conforme o narrador me conduz. 
Em tempos de esterilidade (como agora), Genet a um só tempo me consola e me distancia do meu ego. Ele ainda me ensina a diferença que há entre um escritor e um ficcionista. Por isso, prefiro ser chamado de ficcionista (ou mero contador de histórias). 
Não, não é fácil ler, penetrar no mundo mundo desse autor (ele, sim, "ESCRITOR"). Muitos o detestam. Rainer Werner Fassbinder (que era um gênio do Novo Cinema Alemão) foi lá e filmou "Querelle" (um dos romances de Genet; embora também sombrio, talvez o mais acessível). Depois de filmar a última cena, contam que ele foi para o hotel e se trancou no quarto. Morreu naquela noite, aos 37 anos, numa overdose de cocaína e sedativos. Não chegou a ver o filme pronto. 
Na minha opinião, é um dos filmes mais belos e emblemáticos sobre o desejo hétero e homossexual. Teatral e dramático, como o amor. Talvez Fassbinder tenha ido com muita sede... e se afogou na própria vontade de superação. 
Genet é o ponto de partida, mas também pode ser uma armadilha bem perigosa para alguns. 
... "como um cavalo domado pela própria sombra", foi o que escreveu em um dos seus cinco romances. Assim ainda é Genet: belo, mas também muito arredio e selvagem.



segunda-feira, 28 de março de 2016

Eu contra mim mesmo




Já estive na tal Plaza de Toros, em Madri. Não entrei, claro. Jamais entraria para ver touradas... Mesmo sendo gaúcho, nem quando sangravam ovelhas/vacas (faz parte do "ritual" do churrasco nas fazendas) eu ficava por perto. Uma hipocrisia  de minha parte, admito... Afinal, ainda como carne... e animais são abatidos por alguém para que o bife chegue ao meu prato. Talvez um dia eu consiga mudar (evoluir?). Tomara!

Por outro lado, sempre detestei caçadas esportivas e vaquejadas (vaquejada: uma espécie de rodeio lá no Sul). É uma demonstração, na minha opinião, brutal, sádica e fora de propósito. Neste ponto, sempre tive sérios problemas de identificação com a tradição dos Pampas. Quando me levavam para ver aquilo, eu ficava furioso. Daí, um ou outro me chamava de mariquinhas. Eu também ficava furioso com isso (principalmente, porque nem sabia direito o que significava, mas era um "jeito 'negativo' de ser diferente" que me distanciava dos meninos; portanto, era algo que eu tinha que me tornava "inferior" e fazia com que me vissem como um "estranho"). Depois, com o tempo, já me "acostumando" com o "bullying" (diferente de outros "bullyings" – míope, baixo, gordo, judeu, negro, magricela, árabe, manco, surdo, dentuço etc. –, o do que não se encaixa nos padrões de gênero começa, ainda que de modo inconsciente/velado, bem antes, na própria família e/ou vizinhança, depois segue e se intensifica na escola, trabalho... e costuma ser "trancafiado" por muitos gays como uma bomba-relógio, um segredo muito dolorido dolorido, pelo resto da vida), fui impondo minha forma de pensar. Gostassem ou não, a opinião alheia já não me interessava tanto. Um mecanismo de autodefesa/sobrevivência, certamente... Cada um tem o seu.  

Mas confesso que para ver no campo uma "tourada" como a deste vídeo, eu iria, sim. É simbólica. A luta que travamos ao longo da vida contra a nossa verdadeira natureza. Pode ser feroz/indomável, mas não é nossa adversária/inimiga. Duelar... é bobagem. Melhor tentar aprender a viver/conviver com ela. 

"Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho da minha natureza?" ("Perdoando Deus", conto de Clarice Lispector). 

Esta é uma das epígrafes do meu novo trabalho de ficção... 

  

segunda-feira, 21 de março de 2016

Estoque de bodes expiatórios



Dona Marina Silva aparece como uma das mais cotadas para 2018... Então o jogo é: não suportamos os "radicais" (como são chamados os petistas e afins), nem queremos mais os "vendilhões do templo" (como são chamados os da direita: PSDB, DEM & Cia.), mas podemos dar um voto de confiança aos conservadores (unidos/fortalecidos em impacientes/inflexíveis bancadas evangélicas)? Ora, pensei que os protestos eram, no fundo, contra a falta de isenção no poder. Questão religiosa à parte, como poderá alguém tão apegado a determinados princípios governar com isenção para um país tão heterogêneo, complexo e culturalmente rico?   

Bem...

... das quase 600 páginas da importante obra de João Silvério Trevisan, Devassos no paraíso (atualmente, por incrível que pareça, fora de catálogo), repito aqui este trecho para que possamos refletir sobre o atual momento de fúrias e revoltas (histeria coletiva que pode nos levar a dar mais um "tiro no nosso próprio pé"; já demos outros ao longo da nossa história):

“A verdade é que a civilizaç
ão sempre precisou de reservatórios negativos que possam funcionar como bodes expiatórios nos momentos de crise e mal-estar, quando então, por um mecanismo de projeção, ela ataca esses bolsões tacitamente tolerados.” (Record, 2000, p. 22, 3 ed.)

E vamos em frente (ou para trás)... 

quinta-feira, 17 de março de 2016

Meu Brasil brasileiro





Um (para o Outro, convicto): "Ora, latinos são os outros! Deus me livre! Bata na madeira! Sou alto, loiro, culto, tenho olhos azuis, sangue europeu (nórdico, claro!), um físico invejável e..."

O Outro (para Um, assombrado): "E uma cara de pau impressionante!"



domingo, 6 de março de 2016

Quem nasceu primeiro: o ovo ou a serpente?




Um amigo, numa “amistosa”, "culta" e "exemplar" mesa de churrascaria, indignado com a violência urbana, a falta de segurança, juízes que soltam bandidos, também com os "famigerados" defensores dos direitos humanos etc., etc., etc., lá pelas tantas, já meio alto, sai com essa depois de ver na televisão uma matéria sobre um fulano que tinha sido amarrado nu a um poste e sofrido linchamento (só não foi queimado vivo, porque chegou a polícia para "salvá-lo"):

"Bandido bom é bandido morto! Tem que amarrar mesmo, bater, deixar morrer e apodrecer na calçada, servir de exemplo pra bandidagem!

O outro amigo, que ouviu tudo aquilo calado, ainda solteiro, sem filhos, dá uma bicada no vinho e lança do lado oposto da mesa:

"Bandido bom tem que ser linchado e morto, feito os acusados de bruxaria na inquisição?"

"Claro!"

"Mas... e se for um dos seus filhos?"

O "paizão" logo se encrespa com aquele "absurdo":

"Porra, meu filho... por quê?"

"Não", o provocador tenta dar uma amaciada,"é apenas uma hipótese."

"Filho meu nunca vai ser bandido, porra!"

"Não, claro que não. Mas se, por infelicidade, ele cair numa cilada do destino e o tomarem como culpado numa parada esquisita... e daí um bando de gente furiosa correr atrás dele, amarrar o coitado num poste, tirar toda a roupa e bater nele até matar...?"

"Bandido bom é bandido morto, meu filho não é, nem nunca vai ser bandido, tá entendendo?"

"Evidente que não, mas numa histeria coletiva não há garantias pra ninguém."

Sem ter mais o que argumentar, o pai ofendido rosna:

"Você nunca casou, não tem filhos, deve gostar de homem, sei lá, nem me interessa.... Não sabe a bobagem que tá falando."

O outro sorri (vencido?) e faz um aceno de cabeça, concordando:

"É verdade, você tem toda a razão. Daqui a pouco, assim que esgotar o estoque de culpados mais óbvios, não duvido que comecem a amarrar nos postes as bichas, as lésbicas, os judeus, os muçulmanos, os macumbeiros, os ateus, os pinguços, os drogados e assim por diante. O fascismo começa desse jeito."

"Fascista é ser uma pessoa honrada e ter princípios cristãos, hein, seu comunista desgraçado?"

Depois disso, conta paga pelo provocador, a mesa ficou vazia. Acabou o jantar, a “amizade”, tudo.



terça-feira, 1 de março de 2016

Nosso "mea-culpa"




Meu pai era bastante criticado por ajudar nas "coisas da casa" (ou, como diziam os "machões" de plantão: fazer "trabalho de mulher"): varrer, limpar banheiros, passar roupa, arrumar a cama, mandar suas camisas e calças para a lavanderia, pôr outras roupas na máquina, estendê-las no varal, recolher tudo aquilo, cuidar da horta e cozinhar (até hoje não comi um "arroz de carreteiro" melhor que o dele, feito na panela de ferro).

Cresci, sim, como me diziam em tom de gozação na escola, "numa casa invertida". Minha mãe era dona de salão de beleza e de loja, viajava muito. A bagunça da casa era por conta do pai. Quando ela viajava, víamos filmes até de madrugada na cama de casal... e, no dia seguinte, ele fazia o chimarrão e o melhor leite com Nescau do mundo. Ficava ali, sentado na minha cama, cuia de chimarrão em uma das mãos, mamadeira na outra. Sim, tinha mais essa "exigência": eu só tomava todo o leite, se ele segurasse a minha mamadeira. Só larguei a mamadeira quando comecei a estudar de manhã, lá pelos 8 ou 9 anos. Depois tive que usar aparelho nos dentes por mais de uma década, mas isso é só um detalhe insignificante... 

Digo hoje pra mim mesmo: "Puxa, que bom que meu pai andava na contramão de uma porrada de idiotices". Preconceito, foi uma das coisas que ele mais me mostrou que era uma furada, comportamento de gente tacanha. Futebol, ele não era fanático nem pelos jogos da Copa. Time, acho que nunca teve. Se teve/tem, não me lembro de tê-lo visto acompanhando algum campeonato ou jogo.


Com 17 anos, saí de casa sem medo de enfrentar a vida sozinho, pois já tinha aprendido com os dois (pai e mãe) a fazer de tudo (inclusive, bainha de calça com ponto pé-de-galinha. Duvidam? Perguntem a quem já me pediu para fazer tais "serviços". Não deixo um ponto aparecendo do outro lado do tecido. Se aparecer, arranco a linha... começo tudo de novo. rsrsrs!)  


E hoje vejo tantas famílias, em nome do tal amor incondicional, caindo na mesma armadilha machista de gerações anteriores, criando filhos extremamente dependentes e folgados... Mães que se desdobram para dar conta de tudo, maridos omissos (por conveniência, incompetência ou falta de pulso, sei lá)... 


Vamos ver no que vai dar tudo isso.  


Tomara que alguns caras bobalhões façam o "mea-culpa" que esse tiozinho do comercial de sabão em pó fez.  


Tomara! Ainda dá tempo!