Total de visualizações de página

segunda-feira, 26 de março de 2018

A volta dos que nunca foram de fato




Morros cariocas ameaçam descer e Tuiuti põe o dedo na ferida de muitos. Praticamente, a resposta vem no dia seguinte: milicos nas ruas do Rio. Esse é um claro sinal de manobra política, mais para abafar a derrota das reformas na previdência do que uma preocupação real com a violência. Perigosa, muito perigosa essa manobra. Mas, como nos anos 1960, a classe média pediu novamente “ordem e progresso”. Alguns pobres iludidos, também. Em país maduro, não é governo ou milico, mas toda a sociedade se comporta com seriedade. Não temos isso aqui, talvez nunca tenhamos.

Recentemente, em uma entrevista para a TV, um europeu disse que em países como a França, por exemplo, é clara a divisão: todos sabem que os ricos comandam tudo – portanto, são os verdadeiros inimigos do povo. Com isso em mente, a população sabe como agir para impor limites à exploração. Já em países subdesenvolvidos, a classe média, além de ser inimiga dos pobres, tem a ilusão de fazer parte da classe dos que sempre mandaram em tudo. Sem união, classes média e baixa perdem a força de luta por direitos; são facilmente controladas.


Os discursos para atacar a luta por igualdade de direitos é antiga, ainda ouvimos brados insanos de “o Brasil não será uma nova Cuba”. 


Depois do impressionante desenvolvimento econômico da China (o salário mínimo é maior que o do Brasil e o gigante vermelho ataca o mundo com a maior arma do capitalismo: o consumo desenfreado), e ainda essa velha ladainha de “comunismo miserável e nefasto”? 


Ora, a maior parte das pessoas que conheço é de aposentados e assalariados, poucos conseguiram adquirir bens muito significantes ao longo da vida, e todos ainda morrem de medo de perder o "quase nada" que conseguiram juntar. E foi no regime comunista que isso aconteceu? Não, nunca tivemos um regime comunista. 


Aliás, nem se sabe direito o que é viver em um regime comunista; não temos referências concretas, apenas o que lemos ou ouvimos dizer. Boatos, apenas boatos. Asneiras muito fáceis de difundir em um país com um índice alarmante de analfabetos funcionais (em todas as esferas da sociedade).

O que todos vivenciamos é um sistema político e econômico perverso e corrupto há séculos: o capitalismo mesquinho e mambembe. E não é só aqui que isso existe. Semanas atrás, em Fort Lauderdale–Hollywood International Airport (Miami), um funcionário credenciado nos pediu propina para melhor despachar as nossas bagagens. E, mesmo assim, romperam sorrateiramente os lacres de uma das malas. E temos outros (maus) exemplos de gente que também quer levar vantagem por lá, como acontece aqui. 


Assim, penso que o melhor caminho é o de esquecer esse blá-blá-blá de “ameaça comunista” e tentar arrumar a nossa casa.


Não é uma maravilha de casa, nunca foi, talvez nunca seja, mas é a que temos.


Colocar milicos nas ruas é tentar apagar o incêndio jogando areia no fogo: pode abafar por um tempo, mas a labareda surgirá em outro lugar. Atacar não é o mesmo que enfrentar o problema. Com inteligência, não com força, é que se costuma resolver questões complexas como o avanço do crime organizado. O crime não se organizou do dia para a noite, isso demanda tempo, facilidades e ajuda de todo tipo. Em maior ou menor grau, todos nós somos cúmplices desse avanço da bandidagem (que também existe em todas as esferas sociais).




sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Depois do depois...



“Da minha cidade natal, saí cedo, quase menino. Demorei muito, muito tempo para voltar. Quando retornei, percebi que casas e pessoas da minha história já não existiam mais. É difícil enfrentar isso; vai crescendo um vazio por dentro, a vida já não tem o mesmo sentido de antes. Revisitar um lugar, mas sem poder encontrar o que ainda está muito bem guardado na nossa memória, é devastador. Melhor nem pôr novamente os pés lá, naquele passado distante, deixar tudo aquilo apenas na lembrança. Fazer esse caminho de volta pode ser muito doloroso para alguns. A verdade é que muitas vezes vamos para longe, e cada vez mais longe, para depois, quando já passou tempo demais, descobrir que o melhor caminho era o de volta para casa. Foi o que aconteceu comigo quando resolvi visitar o casarão em que eu havia passado a infância e quase toda a minha adolescência. Nas redondezas, comecei a perguntar pelos amigos e vizinhos daquela época. A casa agora era um edifício de três andares, havia uma grande loja embaixo. Das pessoas, ninguém sabia. Nem de mim. Eu era apenas um estranho perguntando a estranhos o paradeiro de outros estranhos. Acho que saudade é isso: querer rebobinar os rolos de um filme corroído e mudo de um tempo que não existe mais.” 

(Trecho de “Verão sem sol”.
© F.G.)

domingo, 28 de janeiro de 2018

DE CARA-PÁLIDA PARA CARA-ESPICHADA



Olhando lá do futuro, imagino que alguém vai ver que o grande problema da humanidade foi a briga insana com os relógios e calendários.

Quando crianças, querem ser adolescentes.
Quando adolescentes, querem ser adultos.
Quando adultos, voltam a agir como crianças/adolescentes.
Quando velhos, começam a “malhar” o corpo que nem condenados, espichar a cara até não poder mais e arranjar amantes bem mais novos para disfarçar a idade.

Nesse descompasso, em vez de viver de verdade, todos interpretam personagens tragicômicos (muitas vezes, caricatos).

Para piorar a situação, agora querem aumentar a expectativa de vida para além dos 100 anos. 

Mas pra quê? 

Morra na hora que tiver que morrer, diabo! De preferência, discretamente, sem fazer tanto alarde! Pare de ser ridículo!


domingo, 21 de janeiro de 2018

Indo por aqui (ou por lá)




Os Maias podem ter se enganado: às vezes, tenho a sensação de que o “mundo” acabou para mim entre agosto e setembro de 2013, naqueles 30 dias de internação, quando fui submetido a duas neurocirurgias de alto risco. 
Morri, e meu purgatório particular é ter vindo parar neste tempo estranho. Não me reconheço nele, nem ele me reconhece mais. 
Agora, somos dois estranhos. 
Será que morrer é isso: passar para uma realidade paralela (e bem mais absurda que a anterior)? 


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

De Maria Callas a Pabllo Vittar (passando por Dercy Gonçalves)




Não sei se essas listagens são verdadeiras, mas dá para refletir um pouco sobre a diferença, não da “qualidade” artística, mas do público. 

Se a segunda lista enumera esses outros artistas do momento, é porque a sociedade foi se tornando mais acomodada intelectualmente, imediatista e, digamos, de “gosto” mais rasteiro? Sinceramente, não sei responder (nem quero). 


Ora, o artista oferece o “peixe” que ele tiver para vender, compra quem quiser. Se, num mercado de peixes, agora o consumidor preferir “sardinha”, que se farte com sardinhas. O menos importante é a sardinha oferecida no mercado ou servida no prato, mas o movimento que os cardumes farão para sobreviver aos ataques dos predadores e, talvez, subverter a ordem estabelecida. O tempo fará a seleção natural. E tudo se ajeitará daqui a pouco. 


O fast-food acabou com a alta culinária? 


O prêt-à-porter acabou com a alta-costura? 


O rock and roll acabou com a ópera? 


Os quadrinhos acabaram com a prosa?

A telenovela acabou com o teatro ou com o cinema? 


Não. 


Cada gênero em seu contexto e com o seu público. Cada geração tem as suas preferências. 


O que não acho bacana (nem saudável) é o patrulhamento. Pois que cada um faça o que bem entender e tente ser feliz dentro daquele seu universo de possibilidades. O meu é o meu. O dos outros, que continue com os outros.


Para encerrar esta minha “profunda reflexão” de início de semana, deixo aqui um desabafo da grande “filósofa” Dercy Gonçalves: 


“Se Deus, que é tão sábio, deu um c... para cada ser, por que diabos eu vou querer cuidar do c... dos outros ou deixar que cuidem do meu c...? Ah, que todos vão tomar no c... deles e me deixem viver em paz com o meu c... de velha!”  


Obs.: na primeira lista, por exemplo, eu jamais colocaria um ou outro artista. Mas é questão de gosto e de referências pessoais. Apenas isso. Não tem cabimento criar uma guerra mundial por causa disso, né? Tem coisa bem mais importante para ser discutida.



segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Roda Gigante, filme de Woody Allen





Já fazia algum tempo que eu não sentia mais tesão em ver os filmes anuais do Woody Allen, aqueles com verbas/patrocínios para mostrar cidades pelo mundo, que mais pareciam um longo e pueril anúncio de turismo. Que bom que o diretor voltou ao seu “reduto” existencial para mostrar cenas do cotidiano. É como se o cineasta reencontrasse suas lentes dos tempos de Mia Farrow, a atriz e ex-mulher dele que dizem ser muito temperamental e problemática. Ótimo que seja uma pessoa temperamental e problemática, pois essas são bem mais interessantes e inspiradoras que as pessoas “normais”. 

Neste novo filme, embora Allen cite nas falas o dramaturgo Eugene O’Neill (sempre cita vários criadores em seus filmes), vi mais outro grande autor em Roda Gigante: Tennessee Williams... nas relíquias de um suposto passado de glória e no delírio etílico da garçonete/dona de casa entediada e adúltera, personagem interpretada pela sempre competente Kate Winslet. Isso me lembrou muito a conturbada Blanche DuBois, da peça Um bonde chamado desejo, do Williams. Os demais atores estavam, como sempre, bem dirigidos por Woddy Allen. 

Vibrei com as discussões realistas e a dramaticidade pungente do filme. 

Assim como na vida real, não há um final feliz em Roda Gigante, porque não existe mesmo final (feliz ou infeliz) na vida das pessoas. Vida é como esse brinquedo dos parques: uma hora põe a gente lá no topo, depois faz quase arrastar os pés no chão. E volta a subir... Mas quem quiser, pode descer ou pular da roda em movimento. Cada um que decida por si a sua hora de parar de “brincar”. Mas a roda, como se nada tivesse acontecido, continuará em movimento. Claro que queremos (ou precisamos) acreditar que tudo vai parar quando descermos... Só que nada vai parar, não. Nem deve. A roda gigante da vida dos outros continuará girando. E o esquecimento se encarregará do resto.  


domingo, 24 de dezembro de 2017

Para o Natal (de alguns)


Dizem que há dois tipos de gente na Terra: quem veio para fazer parte da paisagem (do jeito que ela é) e quem veio para modificá-la.

Há um preço alto pela “desobediência” ao que a sociedade (padres, pastores e líderes religiosos em geral) impõe aos fiéis. Claro que há! Mas é a fatura que alguns (poucos, infelizmente, bem poucos!) preferem pagar para mudar as engrenagens das civilizações hipócritas e convenientemente criadas para manter as pessoas no cabresto do medo, do pecado, da culpa, do castigo divino, do inferno e blá-blá-blá.

Nascemos anjos livres, mas rapidamente as penas das nossas "asas" são cortadas para que não possamos voar por conta própria. Vivemos em "gaiolas morais”.

Minha descrença no divino vem daí, dessas proibições inventadas pelos homens para proteger os interesses de alguns (poucos, FELIZMENTE, bem poucos... mas, infelizmente, poderosos).


Sendo sincero, penso que o “paganismo” talvez seja bem mais “sagrado” que os discursos oficias e tendenciosos das religiões. O tempo dirá.

Aqui, um vídeo com uma crônica sobre quem teria sido Jesus de Nazaré. Uma visão, apenas isso. Na verdade, tudo o que temos daquele período são interpretações; nada é, de fato, documentado. Ora, se nem na atualidade podemos confiar totalmente nos registros, livros, jornais, imagens etc., imaginem há dois mil anos. 

Boa virada de ano, amig@s!







quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Um grito de resistência


Já não sou mais tão fã de carnaval, mas este samba da Beija-Flor para 2018 me animou/emocionou bastante. É um soco no estômago dos políticos e religiosos hipócritas. Também uma bela resposta a Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo (Igreja Universal do Reino de Deus) e R. R. Soares (Igreja Internacional da Graça de Deus). Crivella é o prefeito do Rio de Janeiro que desprezou o carnaval carioca (além de outras manifestações “afros” e gays). Misturar política e religião é veneno puro, e quem paga a conta é a população.

O enredo é poético e, ao mesmo tempo, provocador:

“Monstro é aquele que não sabe amar (Os filhos abandonados da pátria que os pariu)”.

A cidade maravilhosa respira por aparelhos, mas é guerreira, vai sair dessa.

Amigos cariocas, esta é para vocês!

........................

Sou eu
Espelho da lendária criatura
Um mostro
Carente de amor e de ternura
O alvo na mira do desprezo e da segregação
Do pai que renegou a criação
Refém da intolerância dessa gente
Retalhos do meu próprio criador
Julgado pela força da ambição
Sigo carregando a minha cruz
A procura de uma luz, a salvação!

Estenda a mão meu senhor
Pois não entendo tua fé
Se ofereces com amor
Me alimento de axé
Me chamas tanto de irmão
E me abandonas ao léu
Troca um pedaço de pão
Por um pedaço de céu

Ganância veste terno e gravata
Onde a esperança sucumbiu
Vejo a liberdade aprisionada
Teu livro eu não sei ler, Brasil!
Mas o samba faz essa dor dentro do peito ir embora
Feito um arrastão de alegria e emoção o pranto rola
Meu canto é RESISTÊNCIA
No ecoar de um tambor
Vêm ver brilhar
Mais um menino que você abandonou

OH, PÁTRIA AMADA, POR ONDE ANDARÁS?
SEUS FILHOS JÁ NÃO AGUENTAM MAIS!
Você que não soube cuidar
Você que negou o amor
Vem aprender na beija-flor

- - - - - - - - - - - - -

Autores: Di Menor BF, Kiraizinho, Diego Oliveira, Bakaninha Beija-Flor, Júlio Assis e Diogo Rosa. / Intérprete: Neguinho da Beija Flor


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Pois é...





“Este ano passou voando, não?”

“E agora começa toda essa palhaçada de fim de ano...”


“Pois é... Mas que bom que passou rápido, porque 2017, pra mim e pra todo mundo, foi uma bosta.”


“Qual a novidade nisso? Tenho 83 anos, e sei que o Brasil sempre foi uma bosta. De vez em quando, enfeitam a coisa. Mas não adianta; bosta é bosta. O povo não tem memória, fala um monte de besteira por aí. E a gente se ilude porque é burro, mesmo.”


“Credo, não é bem assim...”


“Não? Primeiro, vieram os das caravelas: pra roubar e matar os índios. Mais adiante, a corte, a república... Todos só queriam meter a mão no que podiam. Aí, vieram os milicos, que meteram a mão na cara e nos bolsos de todo mundo, só que ninguém podia abrir o bico para reclamar. Deixaram um rombo, uma inflação absurda e um país atrasado. E agora apareceram esses outros safados. Metem até Deus no meio para ver se ganham um pouco de credibilidade. Pilantras. Todos fazem a mesma escola. Sempre foi assim.” 


"Pois é...”


Essa foi a melhor conversa que ouvi nos últimos tempos, ali, na fila dos Correios, quando duas idosas tentavam inutilmente quebrar a monotonia em uma agência abarrotada de clientes carrancudos que não desviavam os olhos dos celulares.



domingo, 26 de novembro de 2017

Bateu, levou!




Aqui, estudando os orixás para poder elaborar o “esqueleto” de um novo texto, pesquisei sobre Xangô, que é um arquétipo da justiça, dos raios e do fogo. Carrega um machado duplo (afiado nos dois lados). Dado ao prazer, teve três esposas: Iansã, Oxum e Obá. Por mais que pareça autoritário e implacável, é extremamente justo. Odeia a falsidade e a mentira. Quem invoca (ou se mete com) essa força da natureza precisa estar atento à lei do retorno. Aquele que comete alguma injustiça ou pede justiça sem merecê-la, da mesma forma que usa o machado de Xangô para prejudicar alguém, receberá de volta outro golpe ainda pior, direta ou indiretamente (por meio de seus familiares etc.). 

Não sou profundo conhecedor de mitologia africana, porém noto muita correspondência com os deuses egípcios, gregos, romanos e celtas. No fundo, é sempre o homem tentando explicar/justificar suas forças internas (força natural “versus” freios da consciência). 

No catolicismo também há essa semelhança. Por exemplo, quando é atribuído a cada santo um tipo de “área de atuação”. Por isso, dizem os estudiosos que não há religião monoteísta, já que as que se consideram seguidoras do “deus único” também admitem a existência do diabo, a divindade que está sempre em combate com o seu maior inimigo: deus. O diabo seria um filho rebelde e desnaturado ou a outra face de deus? Não há resposta. 

O que mais me seduz nas mitologias é o fato de os deuses estarem próximos das limitações humanas; não são imaculados, nem inatingíveis. Estudar as mitologias é olhar para dentro (para encarar os nossos próprios abismos), não para o céu (um paraíso inalcançável). 

Deixando o meu ceticismo espiritual à parte, acredito, sim, na lei do retorno (pregada em todas as religiões e crenças). Aliás, mais que acreditar, sou testemunha disso. Aos 50 anos, já vi muita coisa, conheço bem o "roteiro" de quase todos os "filmes". Xangô, na minha visão, seria a nossa consciência; não tem juiz mais atento e austero que ela. 

Como diz o ditado: “Aqui se faz, aqui se paga”. Este será o mote do meu novo trabalho. Não pelo lado moralista/civilizatório/religioso, mas somente tendo a consciência como foco principal da narrativa e da trama.

Bora lá, para a minha estiva! Hoje é domingo? Pois é, para alguns... Ficcionista não tem folga. 



terça-feira, 14 de novembro de 2017

Romance perdido




Faz tempo isso... Era final dos anos 1980. Numa tarde, eu estava na sala do apartamento do Caio Fernando Abreu, na rua Haddock Lobo(se não me falha a memória), enquanto ele terminava o último capítulo do romance Onde andará Dulce Veiga?. Naquela época, os textos ainda eram datilografados. Não havia muitos computadores nas casas. Para ter uma segunda via de um texto, ou o autor ia até a loja de fotocópias mais próxima ou usava papel carbono.

Lá pelas tantas, o interfone tocou... e subiu o office boy da editora. Caio colocou os originais em um envelope e entregou o novo livro a ele. 


Aquilo me deixou assustado. 


"Mas você não vai ficar com uma cópia?", perguntei. 


Ele respondeu tranquilamente que "não"; não havia necessidade, já que o livro seria publicado... e ele teria muitas cópias daquela história.


Meu lado exagerado e trágico falou mais alto:


"E se o cara for roubado ou sofrer um acidente e as páginas se espalharem por aí?"


Depois de rir balançando a cabeça, Caio deu uma funda tragada no cigarro (fumava muito, um depois do outro) e disse com uma calma que me deixou ainda mais perplexo:


"Se as folhas do livro forem levadas por um ladr
ão ou pelo vento, paciência; há romances que nascem perdidos, não acha?"


Caio tinha essas frases... E até hoje, por andar sem fôlego e engavetar muitas histórias, penso nisso que ele me disse: há, sim, textos/sentimentos que nascem anêmicos, sem força, desanimados. A verdade é que semente sem terra boa não vinga. Infelizmente, agora não temos uma sociedade disposta a ler, ver peças, bons filmes... Quando a crise bate, a arte é a primeira coisa a ser deixada de lado. Pior: artistas são demonizados, perseguidos, eliminados.


Vamos ver até quando isso vai durar.


Por enquanto, o silêncio pode dizer mais que muitas palavras.


Obs.: Bem depois daquele meu encontro com o Caio, outro amigo (que, aliás, me apresentou ao escritor) levou o romance para as telonas. Em 2008, Guilherme de Almeida Prado dirigiu Onde andará Dulce Veiga?. Caio já tinha nos deixado em 1996. Talvez ele tenha se enganado: nem todo "romance" (desejo?) se perde para sempre. A vida tem seus caprichos. Cedo ou tarde, a terra se renova e as sementes descartadas voltam a germinar como se nada tivesse acontecido. A pressa é sempre dos homens, não da natureza.  





sexta-feira, 27 de outubro de 2017

País falido vende tudo






Temos dois países: o BraZil (dos que acham que fazem parte do primeiro mundo) e o BraSil (dos que sentem na pele a realidade como ela é). 

Sendo civilizada, toda a discussão/reivindicação é válida e bem-vinda, mas não pode pender somente para um lado e servir de “manto midiático” para desviar a atenção (ocultando, assim, as falcatruas e negociatas que estão destruindo o país). 

Ah, é verdade... Esqueci de falar do Bra$il... Sim, tem esse também, mas já foi quase totalmente vendido por preço de banana. Não resta muita coisa. Agora, vão vender o pré-sal para os estrangeiros. Pois que vendam toda essa porcaria de petróleo de uma vez! Era isso que os estrangeiros tanto queriam. Que levem; já fizeram o estrago que podiam ter feito no país. No planeta inteiro, onde há petróleo, houve exploração, guerra e/ou miséria. É um “tesouro” maldito. Assim como outros: ouro, pedras preciosas, minerais... 

Anotem aí: A próxima grande disputa mundial será por recursos hídricos. O Brasil já foi mapeado por grandes multinacionais interessadas em privatizar a água doce (principalmente, as nascentes). E vão conseguir isso, porque já provamos que também somos incompetentes nessa área de manutenção/conservação dos nossos rios, lagos etc.

Como já nos “aconselhavam” no início dos anos 1980 a durona Margaret Thatcher e o presidente francês François Mitterrand: ora, se não somos competentes para administrar o país, temos que começar a abrir mão das nossas riquezas e do nosso terrirório.

“Em 1983, a então premiê britânica Margareth Thatcher compactuou com os rumores de internacionalização de parte do território brasileiro, ao declarar: ‘Se os países subdesenvolvidos não conseguem pagar suas dívidas externas, que vendam suas riquezas, seus territórios e suas fábricas’. Alguns anos depois, o presidente francês, François Mitterrand, fez coro: ‘O Brasil precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia’.” (Revista Superinteressante, https://super.abril.com.br/ideias/os-gringos-querem-a-amazonia/#) 

Os dois receberam muitas críticas na época por terem feito tais declarações. Mas hoje vemos que tinham razão. Imaturos e irresponsáveis, precisamos de “tutores”, como acontece com os incapazes que herdam grandes fortunas – e, apesar de tutelados, acabam perdendo tudo e/ou se tornam escravos da riqueza que eles não sabem cuidar. 





quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Muy niños, pero más libres




Domingo passado, assistimos a este filme argentino: Esteros, rodado em Passo de los Libres (fronteira com Uruguaiana, minha terra natal). É muito singelo, tão puro e simples como as melhores lembranças que a gente tem da puberdade/adolescência. Óbvio, se tivesse sido uma produção brasileira, seria hoje apedrejado pelos moralistas de plantão. Diriam que é propaganda de sexo entre menores, incentivo à homossexualidade, filme para excitar pedófilos, enfim, toda aquela ladainha da indústria do pecado – aliás, cada vez mais próspera.

Ora, mesmo que platônico e/ou sem sexo, quem não teve uma primeira paixão nessa idade? Quem não deu aquele beijinho escondido? Quem não brincou de médico? Quem, lá dos Pampas, já não tomou banho de açude? Eu tomei até pelado, claro. Era muito bom. Ah, é verdade... tinha o problema das sanguessugas. Tive sorte; nunca vieram em mim. Nem elas me quiseram...

Esteros está disponível na NET.

Para os parentes e amigos da fronteira, esse filme vai tocar no coração de modo mais intenso. Ir para Libres era um passeio obrigatório para todos nós. Comprar patins, então, o sonho da maioria da minha geração. Embora mostrem poucas cenas em plano geral, dá para ver um pouquinho da cidade. Aparece até o carnaval dos correntinos. Houve um tempo em que o carnaval de rua deles era tão bom quanto o de Uruguaiana, que é famoso (às vezes, até superava o nosso). Lança-perfume à vontade (que já era proibido no Brasil).

É, o Brasil e os seus freios! 

Se proibição desse algum resultado positivo, seríamos uma potência imbatível. 

Mas, voltando... Como eu disse, o filme e a trama são bem simples (quase clichê de romance proibido). As imagens vão pegar mais na nossa memória...

Tem participação de atores brasileiros.


terça-feira, 24 de outubro de 2017

Por que uso um sobrenome e não outro?




Algumas pessoas (do Sul, principalmente) costumam me perguntar isso. 

Vamos lá... 

Com pouco mais de 19 anos, quando escrevi para cinema pela primeira vez (e meu nome teria que ir para os créditos de “argumento e roteiro”), o diretor me disse que ”Felipe Tavares” ou “Felipe Freitas” eram uma porcaria para cinema. “João”, eu mesmo não queria, porque nunca me identifiquei com esse primeiro nome. Aliás, não gosto de nomes compostos. Daí, já sem muita paciência, ele esbravejou:

“Deixe de frescura! Esse nome de batismo serve para médico, advogado, professor, qualquer outra coisa, mas não é forte para artista.”

E discutimos quase uma madrugada inteira (sim, esse diretor só trabalhava das 21h até as 6h do dia seguinte). E só via o sol nesse primeiro momento da manhã. Depois dormia. Acordava à noite. Era um vampiro.

Então adotei um dos sobrenomes da minha avó paterna, Isabel.

Para facilitar, aqui vai um pouquinho da minha árvore genealógica (apenas sobrenomes para evitar “clonagens” de documentos):

Avós por parte de mãe: Fioravanti, era o sobrenome da minha avó; Freitas, do meu avô.

Avós por parte de pai: Greco era o sobrenome da mina avó; Nunes Tavares, os do meu avô.

Deles, vieram meus pais e meu sobrenome de registro: “de Freitas Tavares”.

Minha avó por parte de pai era surda, vivia em um mundo que era só dela (e isso me fascinava). Ralhava comigo por eu comer muito limão. Não chupava, comia com casca e tudo mais de dez limões cada vez que ia visitá-la. "Vai ficar azedo, guri!", ela dizia. Bobagem: azedo eu já era. E meu pai, como já contei em outra publicação, chegou a projetar filmes em Uruguaiana quando eu era bem pequeno. Mais tarde, quando passei a escrever roteiros, de alguma forma, o círculo se fechava, porque eu adorava mexer nos projetores e filmes que o pai trazia para casa. Sem dúvida, é uma das lembranças mais doces que trago daqueles tempos de guri. E não tenho muitas, não. Detestava ser criança. Aquilo de todos mandarem em mim era um porre. Lamento, mas não gostei de ser criança, não. Acho que já nasci velho, rabugento e “general” de mim mesmo. Receber ordem de alguém nunca deu certo, porque não tem “chefe” pior que eu mesmo: cobro de mim mais do que qualquer outra pessoa conseguiria.

Não sei por qual motivo não foi adicionado o sobrenome “Greco” na certidão de nascimento do meu pai. Acho que nem ele sabe explicar direito.

Meu nome, com todos os sobrenomes, seria: “João Felipe Fioravanti de Freitas Greco Tavares”.

Eu adoraria ter esse nome pomposo, mas me registraram apenas como: “João Felipe de Freitas Tavares”. O primeiro nome foi por eu ter nascido num comecinho de noite de São João. O diretor tinha razão: podia ser bonito, imponente, mas não era um nome artístico.


De qualquer maneira, por me dar bem com a minha "vó" Isabel, adotei “Greco” para que o diretor parasse de me atormentar.


Mesmo assim, sem me avisar, ele mandou colocar nos créditos de abertura do primeiro filme: Felipe Grecco. Sim, com duplo “cê”. Quando vi, levei um susto. Mas ele se justificou:


“O filme vai para o exterior; fica melhor o Greco com dois ‘cês’”


Passada essa época do cinema, na primeira publicação, cortei um “cê”... e segui com este pseudônimo literário: “Felipe Greco”, que já tem até uma linha no dicionário mais utilizado na internet: 


https://pt.wikipedia.org/wiki/Felipe_Greco 

Esclareci tudo isso, porque, dias atrás, um jovem cineasta e também pesquisador de cinema me procurou para saber se eu tinha escrito esses filmes “trashs” na Boca do Lixo nos anos 1980/1990. Sim, fui eu.

Tá explicado?

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Histeria coletiva




Dia desses, uma montagem feita com a embalagem do queijo Polenguinho para homenagear/reverenciar o álbum The dark side of the Moon (na minha opinião, um dos melhores) do Pink Floyd, causou revolta nas redes, pois foi recebida como uma apologia da homossexualidade, um desrespeito às famílias e toda aquela ladainha de quem está se deixando guiar mais pelo coração do que pela pela mente.

Essa “febre” de alguns mais fanáticos que satanizam as discussões sobre identidade de gênero é tão séria, que daqui a pouco fiéis serão proibidos de olhar para o céu quando surgir um arco-íris. O que é um belo espetáculo da natureza passará a ser “obra do demônio querendo impor ao mundo uma ditadura gay”.

Ah, pare com isso, amigo!

Uma coisa é não concordar, não gostar, não entender etc., outra bem diferente é arranjar desculpa para transferir aos outros um problema que, na verdade, é seu. Cada um tem o seu próprio desejo. Ou melhor: a sua própria vida. Cuide apenas da sua. Se não tem, arranje uma. Ou, no mínimo, leia melhor os livros sagrados (seja qual for a sua religião ou crença). Copiados de forma tendenciosa ou não ao longo dos séculos, os que são considerados grandes profetas aparecem nos livros sagrados pregando o amor, não a guerra. Os falsos profetas é que precisam pregar a ideia de pecado para poder vender o perdão. Sem culpa, sem medo do inferno e outras amarras inventadas para engessar os impulsos naturais do homem... igrejas, templos & afins ficarão às moscas.

Cuide da própria vida, que suas chances de felicidade e paz interior aumentarão – e muito!


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A cruz ou a espada?



Se o ensino particular, os convênios de saúde e os serviços de segurança lucram muiiiiiito com a precariedade dessas áreas, qual governo seria capaz de melhorar isso? Como enfrentaria o interesse dos empresários que ganham fortunas com tais “problemas sociais”? Será que a elite financeira gostaria mesmo que seus herdeiros frequentassem escolas públicas de boa qualidade ou seus membros entrariam tranquilamente em filas de postos de saúde com ótimo atendimento? Ora, se até em avião, que, caindo, todos morrerão igualmente, há vários espaços delimitados conforme a quantidade de dinheiro que os passageiros trazem no bolso (ou já de berço), talvez as escolas e os postos de saúde de excelente qualidade também criem separações, tipo: classe A, B... Z.

É ingenuidade acreditar que este ou aquele governo poderá mudar os poderosos mecanismos criados há séculos para manter a casa grande bem distante/separada da senzala. A madame pode até (por compaixão, altruísmo, fingimento etc.) batizar o filho da empregada, mas daí a trazê-lo para a mesa da família na ceia de Natal ou incluí-lo no testamento com os mesmos direitos dos seus filhos... isso é raro.


É nessa “esperança” (quase infantil) que os aproveitadores de plantão jogam sementes falsas e espalham soluções mágicas. Os mais afoitos caem facilmente na armadilha.


Nosso analfabetismo funcional e político, mais que um “problema social”, é uma estratégia de poder muito antiga. Vem desde que os primeiros colonizadores colocaram seus pés aqui e forçaram os nativos a entregar a sua terra (e tudo o que havia nela). Ah, não esqueçam que a cruz veio junto. Sempre a “fé” vem a tiracolo para ajudar a legitimar as invasões. Quando alguém diz “estamos fazendo isso em nome de Deus”, pronto: acaba a discussão... e estamos ferrados. Com “Deus” não tem como discutir. Nunca teve, por piores que sejam os seus “desígnios”. O mais curioso é que os castigos “divinos” sempre têm maior peso para o lado dos mais fracos e/ou daqueles que se dão conta de que tudo isso é uma grande farsa para nos manter no cabresto.



quarta-feira, 23 de agosto de 2017

$$$ jogado no lixo


Ontem, depois de receber mais um comunicado de aumento abusivo na tarifa de uma das contas bancárias (por ser empreendedor, sou forçado a ter, além da conta pessoal, mais duas em agências distintas), liguei para a gerente de pessoa jurídica do Itaú:
— Mais um aumento? — perguntei indignado.
— Não posso fazer nada, senhor? Sua tarifa já estava defasada.  
— Como defasada, se aumentou em janeiro? Eu já pagava, em média, sessenta e poucos por conta. Agora vai para quase cem reais? Qual a justificativa? Sem falar que me ofereceram crédito especial para a empresa, depois me cobraram trimestralidades de quase trezentos reais, além das tarifas mensais e os juros. Ou seja: oferecem o “presente”, mas a cobrança vai junto, é isso?
— É o custo pelos serviços, senhor...
— Quais serviços? Não uso agências, nem cheques... apenas o cartão e faço pagamentos pela internet... Muito raramente, quando vou direto à agência, não há mais ninguém por lá, somente um ou dois gerentes, três funcionários nos caixas e máquinas.  
— Há um custo para o banco... Manter os serviços gera despesas.
— Quando você vai ao açougue, à loja ou ao posto de gasolina, lá há uma taxa mensal só para manter os serviços disponíveis para o cliente? E em lojas virtuais, você paga mensalmente para ser cliente?
Silêncio. Insisti:
— No seu salão de beleza, os serviços não estão lá, sempre disponíveis?
— Não entendi, senhor...
— No salão, você paga para continuar sendo cliente, mensalmente, ou apenas pelos serviços que utilizar?
— Pelos serviços, senhor...
— Pois é... Viu só como se explica o lucro absurdo dos bancos brasileiros: mesmo sem trabalhar, eles recebem mensalidades e outras taxas impostas aos clientes. Trocaram funcionários por máquinas. Segurança e manutenção são terceirizadas. O sindicato de vocês foi aniquilado. Amanhã, quando completar mais alguns meses de casa e começar a representar um custo muito elevado para ser mantida (e até demitida) pelo banco, você será trocada por alguém mais novo e barato, por um vaso de planta ou por uma gravação idiota, com as mesmas falas que você acaba de repetir para mim. Entendeu agora como funciona o jogo?
— O senhor quer fechar a conta, é isso?
— Não, porque sou obrigado a manter as contas. Sem contas, você e sua empresa deixam de existir. Por isso, talvez eu passe aí amanhã para jogar uma bomba na sua agência...
— Senhor, esta conversa está sendo gravada.
— Espero que esteja mesmo! Mande uma cópia para a dona Milu, sua patroa.
— Quem?
Conversa encerrada. Ela nem sabia quem era uma das maiores acionistas do banco para o qual trabalhava. Eu não tinha como levar adiante uma discussão com alguém treinado para dar respostas prontas. É provável que uma samambaia pudesse interagir melhor com os clientes do que aquela mocinha adestrada. A verdade é que bancos nos roubam descaradamente, e NINGUÉM diz nada. NADA! Banqueiros são agiotas legalizados. Apenas isso. E, junto com os da Fiesp, são os verdadeiros "chefes" deste país. Por isso, continuem aí, batendo panelas; não dará em coisa alguma. Presidente, governadores, prefeitos e todo o resto são paus-mandados. Quem governa de fato o Brasil está em outra esfera de poder, longe dos holofotes e faturando trilhões às custas de idiotas. Ou seja: nós!


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Enfim, o fim...



Ontem, também era evidente/constrangedora a “crise de idade”... No Congresso e em outras esferas de poder, não surgem novas lideranças (ou são impedidas de surgir). Há deputados, senadores, juízes etc. que entraram e não querem mais sair do poder. Dezenas deles, no mínimo, devem ter viajado escondido na arca de Noé, ido ao funeral da Cleópatra ou ao batismo de Jesus. Se somarmos as idades, voltamos à pré-História. Desolador ver aquilo...

A verdade é que a tal superproteção tem se tornado um tiro no pé (dos próprios pais e da sociedade em geral), e isso já é estudado e debatido nas academias. No Japão, é pauta das políticas públicas do Estado desde os anos 1980. Se tem alguém que resolva por mim (mesmo que de forma errada), por que vou arregaçar as mangas?

É provável, então, que venha daí essa carência de gerações protagonistas da própria história. (Na França, Macron é uma boa “arejada” nessa toca de velhas ratazanas que não largam o poder nos quatro cantos do planeta.) Embora muitos se tornem arrogantes, no fundo, jovens atuais são medrosos e acomodados, não têm peito/fôlego para encarar a realidade como ela é. Cheios de freios, vivem no mundo virtual. Ali, sim, têm superpoderes, capas voadoras e o escambau. Envelhecem de corpo, mas ainda imaturos. 

Como tudo, há um preço a ser pago. Já estamos pagando. A fatura maior ainda virá, porque, cedo ou tarde, os “superpais” estarão enterrados. Aí é que eu quero ver. Ou melhor: NEM QUERO VER. (Como digo, se há vantagem em envelhecer, é saber que estamos mais perto do fim. O corpo, sim, mas a vida já não nos pesa tanto. Já estou nesse “estágio”, felizmente.) 

domingo, 23 de julho de 2017

"Deixe-me ir, preciso andar"*




Quando eu era pequeno, tentei fugir, quis muito ir embora com um circo. Até contorcionismo aprendi a fazer. E não era para ser artista, eu queria apenas aquela vida livre, não criar raízes nos lugares, ser andarilho, um nômade. Definitivamente, eu devia ter entrado para o mundo dos espetáculos itinerantes. Amo viajar. Detesto os regressos. Viajante sem viagens, comecei a contar histórias, andar por aí na imaginação – não por gostar de escrever, mas para tentar sossegar de um jeito meio capenga essa minha alma inquieta. Porém, o que me faz falta mesmo é essa outra parte: andar de verdade. Cada vez mais longe. Sem esse compromisso de voltar. Um dia, quem sabe, ainda crio coragem de jogar a mochila nas costas e botar os pés no mundo. “A vida é de queimar as questões”, escreveu o genial Antonin Artaud... Pois é, ainda tenho essa questão das andanças para tirar da lista das minhas pendências existenciais – que agora já nem são tantas assim. Envelhecer é parar de brigar com a nossa verdadeira natureza. Cedo ou tarde, ela aflora e nos domina. Se não cedermos logo, corremos o risco de viver/morrer pela metade, em dívida com o destino.

.....


* Título em homenagem ao grande Cartola, verso da música "Preciso me encontrar".